Ultra violência - the punisher

A ultra violência nos seriados de TV e streaming

A ultra violência se espalhou na TV e no cinema: cenas sem sentido e sem conteúdo são inseridas nos roteiros, como se fossem uma coisa trivial ou banal.

 

Já se foi o tempo em que cineastas se preocupavam com a ultra violência e produziam filmes para condená-la, como foi o caso notório de “A Laranja Mecânica”, dirigido por Stanley Kubrick e desaprovada para exibição na Grã-Bretanha, ou então “Sob o Domínio do Medo”, dirigido pelo renegado Sam Peckinpah, profundamente constrangedor, ambos os filmes feitos no início da década de 1970.

Ora, agora nem é preciso mais ir ao cinema para ver violência. Basta ligar a TV ou o serviço de streaming. A ultra violência, sem nenhuma mensagem útil contra ela, se propaga em uma escalada sem precedentes, como se alguém endossasse a noção de que para resolver os problemas decorrentes da violência urbana é preciso usar mais violência ainda!

Eu terminei de assistir recentemente a segunda temporada do seriado “The Punisher” (“O Justiceiro”), que se encaixa perfeitamente nesta categoria.

Não deveria ser “O Punidor” ou “O Castigador”? Porque “Justiça” per se é que não é mesmo!

Senão vejamos: o “herói” desta tragédia, Frank Castle, é um sujeito destroçado emocionalmente pela perda da família, e que se torna convictamente um homem à margem da lei (a propósito, eu já vi este filme antes), e ele persegue a ideia de vingar a morte da família, custe o que custar.

Neste processo de vingança, ele mata indiscriminadamente quem se mete em seu caminho. O número de mortes é tão grande que, depois de certo ponto, não dá para continuar contando.

 

 

Na segunda temporada, um ex-amigo e igualmente psicopata Billy Russo, cujo rosto havia ficado deformado por um ataque de Castle, se lança ao mesmo objetivo. Mas… Ele está preso, e sob os cuidados da terapeuta psiquiátrica Dra. Dumont, que depois iremos saber se apaixona pelo seu paciente e lhe dá diretivas de, uma vez solto, como conseguir o seu intento de destruir o seu ex-amigo Frank Castle.

E este é basicamente o princípio pelo qual se desencadeia a perseguição de gato e rato que se arrasta pela temporada toda e, desnecessário dizer, só termina nas últimas cenas do último capítulo. Até lá, a tela de TV mostra tanto sangue e violência, que até poderia dar a impressão de um desvio de croma!

Mas, esperem, não para por aí, porque uma moça então fugitiva, Amy, faz acidentalmente fotos indiscretas de um senador homossexual promíscuo, David Schultz, que por acaso é filho da família Anderson e Eliza Schultz, ambos religiosos pervertidos, ultra violentos, e que também não pouparão esforços para assassinar Amy e recuperar os negativos das fotos.

A trupe da inocente Amy já havia sido assassinada, só ela escapou, e resolveu fugir com os negativos, para não ter o mesmo destino.

Para levar aquela tarefa a cabo, o casal Schultz vai à igreja local e convoca o ex-assassino profissional tornado reverendo Pilgrim (“Peregrino”), dizendo a ele tratar-se de uma missão de justiça divina, e para não perder a “cooperação” de vista, o casal ameaça a Sra. Peregrino e seus filhos.

Claro que tudo isso será consertado pelo Justiceiro, mesmo que às custas da própria vida!

O seriado mostra uma psiquiatra que se apaixona por um homicida compulsivo e ela no final mostra o seu lado homicida àqueles que atrapalharem o seu projeto com o paciente tornado amante Billy.

Enquanto ele expressa a raiva de um maníaco a tal doutora se aproveita disso para manipulá-lo emocionalmente.

Eu confesso que não entendi até agora se os roteiristas queriam denunciar a falta de ética médica contra um paciente vulnerável, ou se o objetivo era demonstrar o lado manipulador que muitas mulheres desenvolvem na relação interpessoal com os seus consortes que elas consideram psicologicamente mais frágeis.

Seja como for, no bojo daquela violência toda, é mais um sub tópico do que um tema de discussão. Não deveria, porque falta de ética é um assunto sério, principalmente naquelas profissões onde pode haver risco a terceiros.

A repetição do terror sem sentido no roteiro é insuportável

Na minha adolescência, meus professores de cinema me ensinaram (e insistiam) que a gente devia assistir tudo, independente do gênero de filme. Eu segui religiosamente este conselho por anos a fio, e aprendi muita coisa fazendo isso, principalmente no que se refere à análise ou crítica dos roteiros.

Mas, hoje em dia está sendo cada vez mais desgastante repetir esta rotina, eu diria que é um sofrimento ao qual eu não quero me submeter mais. E quando a coisa fica complicada e difícil, eu peço desculpas aos meus professores e pulo fora!

A obsessão com ultra violência sem sentido tem tornado seriados e filmes para cinema que até poderiam ser interessantes, mas acabam em verdadeiras bombas. A exposição do espectador ao excesso de cenas gráficas acaba por torna-la banal, o que, conceitualmente, é um absurdo.

A violência se espalha para as telas de cinema, agora recentemente com “Polar”, filme de 2019, e aqueles infames dois filmes com o personagem John Wick, entre outros personagens que saem do sossego para a ultra violência.

Quero deixar bem claro que eu sou contra a censura, mas, como em qualquer forma de expressão, a ética e o bom senso ambos têm que ter prevalência sobre o ato criativo. Enganam-se aqueles que acham que ausência de censura é sinônimo de falta de responsabilidade na comunicação de ideias, em qualquer formato.

E a Internet está aí para provar que muita gente se aproveita do critério correto do discurso livre para atacar ou denegrir terceiros sem se sentirem culpados em prejudica-los. A ética deveria fazer parte da formação de todo ser humano, mas infelizmente não é!

Nós que estamos em constante risco com o excesso de violência urbana não precisamos vê-la na tela da TV, com sangue jorrando na cara dos personagens. Simplesmente não é saudável. E pior, não vai dar ânimo, conforto ou escapismo a ninguém que vive em áreas de violência.

Cabe aos políticos o papel de enganadores como “justiceiros”, iludindo o eleitor que com ele/ela tudo será diferente. Não vai, porque as causas da injustiça social não são curadas com ultra violência. Para provar à sociedade que o crime não compensa é preciso primeiro dar o exemplo.

Justiça se consegue com melhor educação para todos, manutenção da atenção correta dos problemas de saúde, e condições de alimentação nutricionalmente satisfatórias! Discurso todo mundo pode fazer, dar o exemplo na ação é coisa de poucos.  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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