O Caso de Richard Jewell

O Caso de Richard Jewell abriu no início deste ano nos cinemas e eu corri para ver. Quem já tinha visto em pré-estreia ficou encantado, e eu mais ainda, ao ver que o diretor Clint Eastwood, agora com 89 anos de idade, continua sendo um artista de ponta!

 

Clinton Eastwood Jr. nasceu em 1930 e está agora com 89 anos de idade, mas com o espírito de um garoto. Por esses e tantos outros motivos eu vou correndo ao cinema logo que um filme dele está sendo lançado.

Assim o foi com “A Mula”, publicado aqui anteriormente. Os hábitos do ator-cineasta são os mesmos de décadas atrás: set de filmagem silencioso, deixar os atores ensaiarem e, na surdina, filmar os ensaios sem que eles percebam.

Além disso, são poucas as tomadas por cena, e os seus técnicos sabem o que ele quer e então o nosso Clint fica ali em um canto, com uma tela tipo tablet na mão vendo pacificamente o que está sendo gravado na câmera digital. Como o número de tomadas é menor e a filmagem dura pouco, ele segue capturando o que de melhor os atores podem oferecer.

A todo momento eu ouço entrevistas de atores querendo demais trabalhar nesses projetos, porque o diretor, além do respeito por eles, lhes dá total liberdade de como eles acham que o personagem deve ser interpretado. Lembrando que o antigo studio system era ditatorial, Clint entrou firme e resolvido na direção oposta.

Ao longo do tempo, Clint Eastwood faz pesquisa de roteiros, até achar o material que lhe interessa. O fã de cinema poderá notar o nome do roteirista logo após o do diretor, na abertura dos créditos, sinal inequívoco do reconhecimento do trabalho desses roteiristas. E se mudanças forem feitas em tempo real, no set, duvido que algum deles venha a se queixar.

Quando “J. Edgar” foi filmado, as más línguas disseram que Leonardo DiCaprio teria ficado irritado quando notou que Clint Eastwood estaria dormindo no set. Se isso aconteceu de fato, por favor alguém me explique a presença do ator na produção deste filme.

O respeito recíproco entre Clint e os seus atores não pode ser pequeno, e a movimentação de câmera e a montagem mostram um estilo distinto de fazer cinema. E embora qualquer cineasta tenha os seus altos e baixos, o resultado deste tipo de projeto costuma ficar entre bom e excelente!

 

 

 

O trailer deste novo filme já nos mostra o que vem por aí:

 

 

Um vídeo publicado pelo IMDb demonstra como o humor foi aproveitado em algumas cenas dramáticas, princípio este atribuído ao lendário cineasta John Ford, cujos passos Clint Eastwood parece seguir religiosamente:

 

 

Na sessão que eu assisti as pessoas ao meu lado riam constantemente com este tipo de humor, cercado que é do drama que se desenrola na tela. Não deixa de ser uma forma catártica de aliviar a tensão.

O filme

O Caso de Richard Jewell abriu mundialmente agora no início do ano e eu estava lá para conferir.

A estória se baseia em um fato real, provocado por um atentado terrorista ocorrido em Atlanta, no ano de 1996. Richard Jewell foi inicialmente saudado como herói, mas logo a seguir investigado como o principal suspeito de ter plantado a bomba que matou várias pessoas.

O foco principal do filme, e aqui não tenho intenção de estragar o enredo para quem ainda vai assistir, se baseia na campanha infame e desonesta da imprensa, que crucificou Jewell sem nada ter sido provado contra ele.

A imprensa marrom é desonesta e sensacionalista por princípio. Inventa uma realidade, para vender a mídia (vide Cidadão Kane), e não se interessa em publicar a verdade.

Quando criança, eu vi meu pai correr para São Paulo, a fim de socorrer uma das minhas primas mais velhas, que havia se casado com um dos Bandeira de Mello, que cometera suicídio, e ela, sem ter culpa alguma, foi presa e vítima da imprensa tendenciosa e agressiva de Assis Chateaubriand. A campanha contra ela, segundo meu pai, foi incessante. Mas, como ninguém conseguiria provar nada, a minha prima foi solta, para alívio da família do papai. A filha dela ficou muito traumatizada e ameaçou retirar o sobrenome Bandeira de Mello do seu registro de nascimento.

A imprensa marrom, que é ciente do seu poder na mídia, quando quer acusar, o faz na forma de uma campanha, pouco importa as consequências! E a gente, na prática, vê isso no dia-a-dia a todo momento.

Em “Richard Jewell”, a jornalista Kathy Scruggs, muito bem personificada por Olivia Wilde, é uma dessas personas que age sem nenhum tipo de ética, e através da matéria publicada por ela é que Jewell enfrenta o seu martírio.

Clint Eastwood classificou a estória como “uma tragédia americana”. Notem que não é a primeira vez que o cinema americano caracteriza agentes do governo como terroristas. Em E.T., por exemplo. Steven Spielberg mostra a invasão da casa de Elliot como se os agentes fossem ameaçadores, usando capacetes como máscaras, e tudo a quem direito.

A perseguição contra um cidadão sem provas ou evidências é profundamente injusta e pode acabar com a vida dessa pessoa. O filme se propõe a denunciar isso.

Os artistas que fizeram parte do elenco nem precisaram falar que fizeram uma pesquisa profunda dos personagens. Quem conhece depois a estória na vida real, como eu, percebe a verossimilhança das respectivas interpretações. O próprio Paul Walter Hauser chega a ter uma semelhança física com o Richard Jewell da vida real, o que é uma incrível coincidência, e sorte dos produtores. Hauser fala com o sotaque de Jewell com perfeição.

Mais uma obra de cinema que veio para ficar, na minha percepção até melhor que A Mula. Espero, por conta disso, ter mais chance de ver a continuidade do trabalho de Clint Eastwood, sem querer, é claro, esperar muito devido à sua idade avançada.  Outrolado_

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Silêncio no set de filmagens… Clint no filme A Mula

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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