O adeus ao Office 2010

Migrei do Office Home & Student 2010 para o 2019, agora ligado na conta da Microsoft, que continua insistindo no uso do Office on-line 365 e desestimulando aqueles que querem as versões com licença vitalícia.

 

É inevitável, me parece, passar por etapas diversas na vida. Eu cheguei na Inglaterra no início de 1990, em um período cheio de transições! A Europa ainda estava no impacto das consequências da derrubada do muro de Berlim, ocorrida em 1989. A University of Wales (anos depois Cardiff University) havia começado a aceitar estudantes estrangeiros na pós-graduação. E na área de informática, mudanças cada vez mais radicais nos ambientes operacionais.

Eu morei por dois meses na casa do meu primo, que estava com a família em Warwickshire para fazer o seu doutorado. Logo de cara, este meu primo me informou que computadores de 8 bits desapareceram do mercado. E eu, de qualquer forma, seria forçado a migrar de plataforma, para poder levar adiante os meus projetos de estudo. Do Brasil, eu só trouxe alguns disquetes de 5 ¼”, e ainda assim porque, por sorte, o MSX-DOS era compatível com o MS-DOS, e muitos arquivos poderiam ser lidos por este último sem dificuldade.

O meu primeiro computador em solo inglês eu comprei do meu primo, que já havia comprado outro mais moderno. Tratava-se de um Amstrad com processador Intel 8086, com os seus 8 MHz de velocidade, tela âmbar, dois drives floppies de 5 ¼”. Este computador durou pouco lá em casa, porque quando a Intel lançou o 80386, eu vendi este micro para uma estudante e parti para um Amstrad 386SX, tela VGA colorida, ao qual eu instalei um coprocessador aritmético, que dinamizou enormemente o meu uso com texto e planilha, em ambiente Windows!

Na Universidade, assim que eu cheguei um dos meus orientadores me deu o computador dele, que ele nunca havia usado, e pediu para que eu instalasse os programas que eu precisasse, que foi o que eu fiz.

Eis aí uma imagem remanescente deste momento, quando este desastrado que vos escreve estava no laboratório processando alguns dados do protocolo de trabalho. A foto foi tirada por um técnico, na base da farra, para que eu pudesse guardar de lembrança da minha passagem por lá:

 

A transição para o Windows

A gigantesca plataforma IBM dos primeiros microcomputadores deixou o Apple Macintosh comendo poeira, apesar das máquinas ainda rodarem em ambiente MS-DOS.

A primeira versão de Word que eu usei foi a 5.0, rodando neste ambiente. Para fazer uma tabela naquele processador era um parto! No laboratório, eu fiquei encarregado de cuidar dos computadores, porque a maioria dos meus colegas, um total de dez estudantes contando comigo, conhecia pouco ou quase nada de informática. Assim, eu acabei ensinando como construir aquela horrível tabela àqueles que passavam por dificuldades para fazer os seus relatórios, que eram cobrados a cada meses de todo mundo.

O que causou aquele empecilho todo no processamento de textos e planilhas foi o ambiente arcaico do DOS. E notem que os computadores da época já trabalhavam com mouse. Mas, as primeiras interfaces gráficas eram todas limitadas, inclusive o Windows, cópia descarada e piorada do Mac. Somente na versão 3.0 do Windows é que as mudanças começaram a ser sentidas.

O Windows 3.0, e depois o 3.1, lançados em 1990, já eram sistemas estáveis com uma interface gráfica decente. Os dois sistemas ainda rodavam como extensão do DOS, mas de forma independente, ou seja, criou-se um ambiente Windows, que posteriormente tiraria o DOS para rodá-lo no background.

Os computadores então passaram a dar partida direto no novo ambiente se o usuário criasse um arquivo autoexec.bat na raiz do disco rígido. E isto forçou o aperfeiçoamento do hardware inclusive, mas naquele momento o Windows 3.0/3.1 rodavam até em computadores IBM mais antigos.

O passo mais importante, entretanto, foi a migração de programas do DOS para o novo ambiente, e embora o conceito de “Office” pela Microsoft já existisse, os aplicativos estavam disponíveis independentemente. Foi assim que todo o meu trabalho migrou do Word 5.0, por exemplo, para o “Word For Windows”, versão 2.0. Foi com esta versão que eu terminei a minha tese.

A propósito, um dos meus orientadores achou a formatação do texto “estranha”, mas com o tempo todo o departamento partiu para uma formatação similar. No meu caso, eu havia seguido regras de “desktop publishing”, que o Word For Windows incorporou, matando assim Page Maker, Ventura, etc.

Todas as software houses que fizeram sucesso com programas em DOS fizeram um esforço na mesma direção, mas algumas dessas tentativas falharam redondamente. Por isso, uma parcela de programas anteriormente usados continuou por longo tempo rodando nas suas versões em DOS, como, por exemplo, o dBase IV, que eu usei para tomar conta das minhas referências bibliográficas.

Já no campo das planilhas, a situação foi diferente, com a introdução do Excel em ambiente Windows. Para quem estava acostumado a digitar comandos na linha de prompt da planilha no ambiente DOS, o Excel foi uma mudança radical. Mesmo assim, eu me senti obrigado a orientar alguns dos meus colegas e técnicos a construir uma planilha, de forma a apresentar relatórios mais rapidamente.

O conceito “OLE” (Object Linking And Embedding) proposto no Windows permitiria a perfeita integração de dados entre aplicativos. Foi assim que mostrei aos colegas do laboratório uma forma mais rápida de integrar resultados nos arquivos de texto.

A mudança nas versões do Office

O tempo passou, as versões do Windows e do Office também. Nas primeiras versões a instalação era feita com disquetes de 3 ½”, e precisava somente de uma chave de instalação. Com isso, a simples cópia desses discos deixava à vontade usuários de máquinas diversas. A Microsoft sabia disso, tentou reagir, mas foi alvo de processos na Europa, que mostraram os vícios daquele monopólio.

Foi somente com o espalhamento da Internet que a Microsoft começou a ter controle sobre instalações copiadas. Ela criou o conceito de “ativação”, para conter a pirataria. Entretanto, cópias piratas ou “ativadas”, ainda rodam por aí, basta pesquisar no YouTube. A mesma coisa aconteceu com o Office de todas as versões.

Se o usuário final reparar, foram poucas as mudanças no Office entre seus aplicativos. Uma das mudanças que eu me lembro deixou muitos usuários irritados foi a eliminação dos tradicionais menus por barras (“ribbons”) contendo símbolos dos comandos. Tanto assim, que ela passou a poder ser desabilitada nas últimas versões do Office.

Uma vez aposentado, eu parei de usar os programas que estavam nos computadores da universidade. O meu primeiro Office doméstico foi o da versão “Home & Student”, lançado em 2010. O pacote dava direito a 3 licenças, como mostra a embalagem:

 

Embalagem original do meu Office 2010.

 

O meu uso anterior extenso de Excel praticamente desapareceu, PowerPoint então nem se fala. Mas, o Word continuou sendo importante para mim, como aliás o foi para milhares de usuários que viram no início da microinformática um forte motivo para comprar um microcomputador!

No Office Home & Student de 2010, eu encontrei todos os recursos que eu precisava e eu poderia tranquilamente continuar a usá-lo por mais um longo período de tempo. Mas, um golpe sujo da Microsoft retirou o suporte de segurança e a atualização desta versão. Nos últimos meses, eu passei a rodar o Word com uma mensagem da Microsoft me alertando a este respeito, a partir de outubro deste ano.

Bem, foram 10 anos de uso ininterrupto, não posso me queixar. E antes de esperar a carruagem virar abóbora, eu resolvi partir para o mesmo Office, na versão 2019 com licença vitalícia para um único computador. Comprei e instalei ontem. As mudanças na tal “ativação” foram imediatamente percebidas.

Agora, o tradicional arquivo de instalação não existe mais. Uma vez a compra realizada, a Microsoft envia imediatamente a chave de instalação e o link para baixar um arquivo de instalação diferente dos anteriores, que vinham em mídia ótica. Este instalador vai on-line, baixa o conteúdo do pacote todo, e faz a instalação rapidamente. Uma vez estando “logado” no site, nem é preciso digitar a chave, a ativação é imediata.

Anteriormente eu tive problemas sérios comprando uma chave ESD do Windows 10. A venda de chaves falsas do Office não é menor! A Fast Shop, de onde sou cliente antigo, vende um pouco mais barato, mas diante da minha experiência anterior, o vendedor me aconselhou a comprar o Office direto na Microsoft. Na Fast, uma caixa vazia é enviada ao usuário, com um cartão lá dentro contendo a chave somente.

O Office 2019 fica ligado à conta do usuário na Microsoft. Na prática, significa que qualquer outro instalador de aplicativos similares não irá funcionar, caso a compra do mesmo não houver sido realizada.

Em contrapartida, agora o instalador pergunta se que quero escolher a linguagem da interface do usuário. Eu escolhi inglês por causa de um vício operacional que parece que eu não largo nunca mais. Mas, uma vez dentro do Office, eu posso trocar a linguagem da interface se quiser, e na parte de correção ortográfica me foi oferecido sem custo o dicionário em português, podendo este ser moderno ou arcaico, ou ambos.

Uma peculiaridade sobre esta instalação, a qual o usuário precisa estar alerta é que se o computador estiver com um Office antigo instalado, e que trabalha a 32 bits, ele deve ser desinstalado primeiro; E se qualquer outro aplicativo independente, mas parte do Office, que for de 32 bits, este deverá ser desinstalado também. Tendo feito isso, o instalador do Office 2019 irá automaticamente escolher a versão de 64 bits. Terminada a instalação, os programas independentes de 32 bits poderão ser reinstalados, se o usuário quiser.

Anacronismo proposital

A essa altura da minha vida eu já não me importo mais de me conduzir conservadoramente em vários quesitos, apesar de continuar assinando em baixo nos avanços da tecnologia.

Assim, se eu que quisesse me manter como estava, não haveria problema. Eu venho notando que a Microsoft insiste nessa mania de convencer o usuário mais antigo de largar as versões do Office com licença vitalícia e partir para a assinatura do Office 365. E a intimidação começa pela ausência de modificações (atualizações ou upgrades) em todas as outras versões do Office e depois na abstração de suporte e atualizações de segurança, como foi agora com o Office 2010.

Concorrência sem trégua

Eu sinceramente não entendo esta perseguição contra aqueles que querem usar o Office off-line e com licença vitalícia. E é bom lembrar que existem pilhas de concorrentes neste segmento, como, por exemplo, o Google Docs, que tem versão gratuita e pode ser usado fora do computador, em outros dispositivos.

A Microsoft também enfrenta concorrentes off-line do Office, com compatibilidade entre arquivos criados em ambas as plataformas, como, por exemplo, o Libre Office, fornecido gratuitamente e com a atualização garantida!

É possível usar o Office mais básico gratuitamente também, caso o usuário entre na nuvem com a sua conta da Microsoft. Se o programa da loja for acionado ele vai direto para a página da Internet onde está localizado o Office básico gratuito.

Parece que se tornou inevitável o desgaste do Office da Microsoft, e a gente fica sem entender esta prática de preços elevados e a insistência com a nuvem.

Usar a nuvem é bom sim, mas diante de circunstâncias, como a chance de trabalhar em grupo ou fora de casa. Porém este uso exige a conexão com a Internet, o que nem sempre é possível, dependo de onde se esteja. Eu estou no grupo daqueles que prefere cópias dos arquivos fora do meu computador, em drives separados, sem precisar baixar nada. Se der zebra, a cópia estará lá e eu, neste caso, só preciso do dispositivo de uso para abrir o que precisar.

Como diz o ditado, cada um salta do bonde como entende. A informática que eu conheci e aprendi ficou para trás, mas ela continua em uso para quem quiser! Outrolado_

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Rodando o Windows 10 com imagem HDR

5 anos de Windows 10. Haverá Windows 11?

Todo cuidado é pouco com as chaves de instalação ESD do Windows

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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