A apresentação de filmes no cinema

A apresentação de filmes na forma de espetáculo

A apresentação de filmes de longa duração introduziu  um formato de espetáculo que foi totalmente retirado das salas mas que ainda precisa ser preservado na mídia de vídeo.

 

Infelizmente, o que era chamado de “showmanship”, processo este criado pelos estúdios norte-americanos para a apresentação de filmes na forma de um grande espetáculo, não existe mais há muitos anos, e eu sou um que sente falta dele até hoje. E pretendo explicar por que:

Filmes de longa duração foram, no passado, divididos em duas partes. Com o advento dos “Roadshows”, que eram exibições especiais, programadas em circuitos limitados de salas de cinema e com lugar marcado, tais tipos de filmes começavam sempre com a cortina do cinema fechada, ao mesmo tempo em que era executada uma música de abertura (“Overture”).

A abertura da cortina coincidia com o início da exibição da imagem, mais especificamente, com a apresentação da marca do estúdio, na forma do seu tradicional logo.

Ao final da primeira parte, a exibição era interrompida com a apresentação de um slide com o texto “Intermission” (“Intervalo”). Este intervalo tinha a duração de 10 a 15 minutos. Durante este tempo, as cortinas se fechavam e as luzes acendiam. As pessoas na plateia poderiam abandonar temporariamente os seus assentos, na busca de qualquer coisa.

Para anunciar o retorno da projeção, era tocado um segmento musical chamado de “Entreato” (ou “Entra’cte”, no original em inglês), ao final do qual as luzes se apagavam, e as cortinas novamente se abriam para continuar a projeção do filme.

Ao final, um último segmento musical era tocado, já com as cortinas fechadas. Era a chamada “Música de Saída” (“Exit Music”).

A composição Abertura – Intervalo – Entreato – Música de Saída era gravada na película. Mesmo aqui no Brasil, os operadores (ou projecionistas, se quiserem) eram treinados para obedecer esta sequência, e no caso específico do Rio de Janeiro, que eu pude testemunhar de perto, todas as apresentações em Cinerama no antigo Roxy e em Dimensão 150 no Metro-Boavista, ou de 70 mm plano em outros cinemas, seguiam rigorosamente este script.

Os estúdios forneciam um roteiro guia, para ser observado pela gerência e pela cabine. Um exemplo, divulgado parcialmente na Internet, nos mostra o roteiro recomendado para o filme Ben-Hur, 70 mm, Camera 65 MGM:

 

 

A transcrição para vídeo

Os fãs de cinema que frequentaram este período de tempo vêm constantemente exigindo que esses segmentos sejam incorporados quando o filme original é transcrito em vídeo.

Nesses casos, quando se trata de filmes antigos, todo o trabalho de preservação depende dos arquivos dos elementos de película e da fita magnética contendo a trilha sonora. Idealmente, a mídia de vídeo (DVD, Blu-Ray, etc.) deveria simular ao máximo a apresentação do cinema, o que, infelizmente, é raro.

No clipe a seguir, o leitor pode ter uma noção de como isso pode ser feito na mídia de vídeo. O clipe foi retirado do DVD do filme “Sweet Charity” dirigido por Bob Fosse, e apresentado em Cinerama e depois em 70 mm plano. A propósito, este foi o filme que inaugurou a nova cabine do Cinema Vitória, reequipada com projetores Incol 70-35.

Na apresentação original em Cinerama (o filme foi na verdade rodado em 35 mm Panavision e depois ampliado para 70 mm), a música começa com as cortinas fechadas, que se abrem já com as luzes escuras, com a apresentação do logo da Universal Pictures. No DVD, o slide “Overture” aparece brevemente, mas a autoração apaga a imagem, para simular a apresentação do cinema:

 

 

A edição em DVD foi feita com o uso de uma fonte magnética de 4 canais, transcrito diretamente em Dolby Digital 4.0, mas como o som é o tempo todo frontal, o prejuízo não é expressivo. Perde-se o diálogo direcional (o vídeo foi “Dolbysado”) e o eco da voz da atriz em um estádio, nos canais surround.

 

 

Sweet Charity está previsto para ser lançado em Blu-Ray. Fontes do estúdio divulgaram informações relatando que uma nova master em 4K estaria sendo feita. Nada se soube sobre a trilha sonora, que é de grande importância, visto ser este um filme musical.

Sweet Charity foi talvez o último grandioso filme musical moderno. Ele dá mostra à coreografia exótica de Bob Fosse, com corpos propositalmente contorcidos, em uma paródia da vida das celebridades. O personagem título é uma mulher que acredita no amor e no casamento, ao mesmo que se desilude com os romances frustrados.

O final oficial do filme (foi rodado um final alternativo) mostra a personagem em profunda depressão, cercada por jovens hippies, lhe oferecendo uma flor e entoando o mantra de “paz e amor”. É o roteiro dizendo à plateia que sempre haverá esperança de mudança com o aparecimento das novas gerações.

As omissões em vídeo

Várias edições em DVD e Blu-Ray (quando se esperava que erros fossem corrigidos) omitiram os segmentos de Abertura e Entreato, principalmente. Um desses casos que me deixou perplexo foi o do filme “Kelly’s Heroes” (no Brasil, com o título cretino de “Os Guerreiros Pilantras”).

O filme foi muito bem apresentado em Dimensão 150 no Metro-Boavista, com tudo a que tem direito, inclusive o Intervalo. Porque esses segmentos foram omitidos a Warner, que eu saiba, nunca explicou.

Mas, Kelly’s Heroes não foi o único. O problema esbarra nas modificações de apresentação, saindo do “Roadshow” para a apresentação convencional. Na década de 1960 vários filmes começaram a ser copiados dos originais em 35 mm Panavision para película 70 mm, e na grossa maioria das vezes os segmentos de Abertura, Intervalo e Entreato foram acrescentados. Então, o correto seria reintroduzi-los nas versões em vídeo doméstico, mas isso não foi feito.

As omissões nas salas de exibição

Eu estava uma daquelas tarde de outrora dentro do Cinema Tijuca, assistindo a um filme em 70 mm. Durante a exibição do jornal da tela e trailers eu comecei a ouvir a trilha sonora de abertura no background. Os operadores nem se deram ao trabalho de desligar o som dos projetores de 70. Quando a abertura acabou eles desligaram o projetor e aguardaram terminarem os trailers. Um desses dias, o cinema estava tão vazio, que era possível ouvir um operador falando com o outro, e eu ouvi distintamente um deles dizer “Vai…”, pedindo ao colega para acionar o projetor de 70 mm.

E não foi só ali que eu vi isso. Eu fui assistir “2001, Uma Odisseia no Espaço” em 70 mm plano, mais de uma vez, e naqueles outros cinemas os operadores também cortaram a música de Abertura e o Intervalo.

A destruição do espetáculo, previsto para ser respeitado pelo exibidor, negou ao espectador o prazer de ver um filme apresentado como devia. Isso me lembrava do operador do cinema do meu tio, no interior da São Paulo, que quando não gostava de um filme pulava um rolo inteiro, para o filme acabar mais rápido. A plateia chiava, mas ele não dava a menor bola.

Na minha perspectiva até hoje, o ato de “ir ao cinema” devia ser acompanhado sempre do ritual sacralizante, que era tradicionalmente realizado na apresentação de qualquer filme: as cortinas só abriam quando a projeção começava, e obedeciam à relação de aspecto da película, abrindo parcialmente para os filmes planos e totalmente nos filmes scope.

Quando os cinemas começaram a retirar as cortinas, a primeira impressão foi de desleixo e, porque não dizer, desrespeito com o frequentador. As omissões já haviam começado com a retirada dos gongos e do apagamento parcial das luzes. Eu ainda vi o som dos gongos ser acompanhado da mudança de luzes coloridas na tela, igualmente removidas.

Retirar tudo isso, salvo melhor juízo, transformou os cinemas em salas frias. Com esta multidão de anúncios eu às vezes penso estar diante de um aparelho de televisão igual ao lá de casa, que pelo menos tem a vantagem de, dependendo do que se está vendo, não ver qualquer propaganda, a não ser a dos estúdios, que eu posso pular sem ninguém se sentir ofendido.

Não é à toa que os Blu-Rays Disney introduziram a possibilidade de pular este material que nada tem a haver com o filme, indo direto para o Top Menu, exemplo a ser seguido por todo mundo.  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “A apresentação de filmes na forma de espetáculo

  1. Paulo mais uma vez tiro o chapéu para esta “brilhante matéria” A muito me sinto ressentido em poder assistir nas salas de cinemas, a filmes antigos como Ben Hur, 10 Mandamentos, Titanic, o Barco, e mais recentemente a trilogia do Senhor dos Anéis. Mas quem se interessa por filmes de longa metragem neste pais ? Tirando aqueles que se beneficiam pela lei Rouanet. Nosso país está chegando a um ponto em que só assistimos filmes comerciais, e com limite de 120 minutos de duração. Enredos tão bem construídos e estórias que fariam tantos cinéfilos viajarem, mas o mercado acabou com isso. Fazer o que ? O jeito que sobra são nossas coleções construídas com muito sacrifício. Um abraço.

    • Concordo totalmente contigo, Rogério. Existe lá fora um movimento acanhado de preservação de espetáculos longos, em película, com direito a cortina e tudo mais, mas este tipo de iniciativa se chegar aqui eu sou um que ficará surpreso.

  2. Otima materia Paulo. No Centimetro o velho gongo faz com que o velho dimmer vá diminuindo a luz e a cortina vai se abrindo. Logo logo, o velho leão ruge,,, Operador profissional ha muitos anos, na saudosa época da película., sempre fiz ques
    stão de enfatizar a magia. Sem ela o filme não era o mesmo…
    Abraços do amigo que , ao voltar de viajem em Janeiro, espera reve-lo

    • Oi, Ivo, eu só lamento que tudo isso tenha desaparecido, mas felizmente você, de forma heroica, mostra aos visitantes aquilo que nós herdamos de melhor no cinema. Parabéns, a sim, quando retornares a este calor infernal marque um encontro que eu agradeço.

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