Masterizado em 4K

Blu-Ray “Masterizado em 4K”

O disco Blu-Ray com o rótulo “Masterizado em 4k” continua a ser produzido e comercializado, apesar da existência do disco em 4K nativos. Tal iniciativa pode acabar confundindo consumidores não familiarizados com este tipo de formato.

 

Eu acabei de ver uma oferta do clássico de David Lean “Lawrence da Arabia”, edição norte-americana em Blu-Ray, com o rótulo “Mastered in 4K”. E a preços bastante elevados, provavelmente por ser um disco importado.

 

Pouco importa, e eu que pensei que jamais iria ver algo desse tipo outra vez. Há um ano e pouco atrás, eu tive em casa uma TV Sony XBR65X55C, que passei adiante. Este modelo eu comprei de uma versão mais atrasada, por causa dos discos 3D, que a TV ainda tinha.

E no setup de imagem desta TV Sony aparecia a opção “Mastered in 4K”, a qual na época eu não tinha a mínima noção do que ela servia.

Ignorância sim, mas justiça seja feita, eu nunca prestei atenção à mensagem mostrada na imagem acima, anunciando este tipo de produto, e me surpreende até hoje ainda mais o fato de que a Sony acabou desistindo de promover este tipo de disco.

Eu confesso que não me lembro de ter visto qualquer edição Sony brasileira com os mesmos dizeres na capa, mas posso estar enganado. Seja como for, eu nunca usei aquela opção da TV, e até hoje a considero totalmente desnecessária. Senão, vejamos:

A masterização e principalmente a codificação de um intermediário digital (DI) em 4K é de fato uma etapa importante a ser considerada, embora alguns parâmetros e princípios devam ser respeitados, para que o máximo de resolução seja atingido.

Embora se faça muito, até hoje, e isso é escancaradamente mostrado nas edições em Blu-Ray 4K, que é escanear o negativo em apenas 2K, e/ou criar um DI com esta resolução, para depois se autorar o disco. O resultado pode até ser satisfatório, mas não é tecnicamente correto, se o objetivo for uma mídia 4K.

O processo de redução de resolução (chamado vulgarmente de “downrezzing”) é absolutamente necessário para se autorar um disco Blu-Ray convencional, quando o intermediário digital passa dos 2K.

Converter 4K para 2K costuma dar bons, em alguns casos excelentes, resultados na qualidade da imagem. Mas, de qualquer forma, não há nada em termos de resolução que demonstre que estamos tratando de uma imagem 4K, a não ser que o reprodutor converta a imagem de volta.

Além disso, os melhores chips decodificadores que processam a imagem 2K têm ampla capacidade de converter a fonte de sinal 2K em uma imagem 4K, em tempo real, e com qualidade capaz de convencer qualquer incrédulo.

Então, afinal, o que tem de diferente no disco 2K “Masterizado em 4K”?

Segundo a Sony, além da formação de um arquivo do original feito em 4K reais, o disco 2K deste tipo é autorado com uma baixíssima taxa de compressão. O esquema faz parte da tal “otimização para TVs 4K”.

O disco Blu-Ray 2K normal tem um bitrate que varia em torno de 20 a 30 Mbps (Megabits por segundo). O disco masterizado em 4K da Sony aumenta esta taxa para 35 a 40 Mbps, o que faz toda a diferença. A propósito, vários discos Warner da série “Archive Collection” também tem um bitrate elevado, mais ou menos nesta faixa de transferência.

Outro aspecto a ser destacado é o do espaço de cores. Segundo a Sony, o espaço xvYCC (uma extensão dos valores tradicionais de vídeo componente – YCbCr), é codificado no disco, e pode ser reproduzido em televisores ou projetores compatíveis.

 

A Sony dá até hoje uma receita para ajustar a TV e conseguir a reprodução deste tipo de Blu-Ray, visto que os seus modelos 2018 ainda seguem esta linha de ajuste.

Contradições de reprodução

É possível enxergar nesta proposta de masterização uma contradição de termos. Isto porque nós estamos tratando com um disco Blu-Ray convencional (2K). Segundo, porque é bastante possível confundir hoje o consumidor, que poderá pensar estar comprando um disco Blu-Ray 4K nativo.

O disco 2K segue o espaço de cores estabelecido pelo padrão BT.709, enquanto que o disco 4K o padrão é o BT.2020, bem diferente neste particular. Provavelmente por isso, a Sony decidiu adotar o xvYCC, como alternativa, mas nem todas as TV obedecem a este padrão.

No lado dos ajustes, o reprodutor de mesa mais moderno tem capacidade de converter o Blu-Ray convencional para 4K, até 60 Hz, caso haja reprodução compatível no televisor. Todas as TVs 4K dos topos de linha são geralmente capazes de receber e reproduzir este sinal. Mas, em se tratando de um disco “Masterizado em 4K” é de pouca valia, porque há uma restrição de reprodução, impondo que o sinal de vídeo que entra no display seja obrigatoriamente 24 Hz e reproduzido como tal.

O que nos leva a uma situação um tanto ou quanto estranha: o disco “Masterizado em 4K” irá ser autorado em 2K, mas o sinal será convertido a 4K no caminho entre o reprodutor do disco e a TV ou projetor. Em outras palavras, um original em 4K reduzido a 2K, mas reconvertido a 4K na reprodução, na suposição de que a integridade do original será mantida.

Eu já vi este filme antes, sem trocadilho

Chama-se DVD Superbit. Eu tive vários DVDs deste tipo, inclusive a versão com 2 discos de Lawrence da Arábia, prensado no Brasil, e ainda à venda por aí!

Foi a própria Sony quem propôs o formato, e eu não me lembro de ter sido adotado por mais ninguém. O DVD com esta proposta também trabalhava com um bitrate mais elevado do que o disco convencional, daí o nome “Superbit”. A imagem resultante do disco também era de melhor qualidade.

 

 

O DVD Superbit esbarrou em um problema, que é o da limitação de resolução deste tipo de mídia, com 480 linhas. Com a chegada das TVs 4K o usuário experiente poderá notar a diferença do Superbit com um disco Blu-Ray do mesmo título.

Fazendo um contraste entre as duas propostas, fica evidente que o disco Superbit disfarça as suas intenções de qualidade porque na época de seu lançamento os televisores e projetores não tinham resolução suficiente para desqualificar o formato.

O mesmo não se passa atualmente: se a Sony insistir no 4K da masterização, com bitrate um pouco mais elevado, ela não poderia desmentir o consumidor que se julgar ludibriado, achando que estava comprando um disco Blu-Ray 4K nativo.

A despeito do sucesso ou não do Blu-Ray “Masterizado em 4K”, eu me arriscaria a fazer um prognóstico sombrio, porque o produto final não é exatamente aquilo que a propaganda exibe. Seria, a meu ver, muito mais interessante aumentar o investimento no Blu-Ray 4K (UHD) e torna-lo visível aos entusiastas ou fãs de cinema.

É curioso que no Brasil os estúdios preferiram não se arriscar na produção e venda de Blu-Rays 4K, mas até hoje ninguém viu qualquer pesquisa de mercado ser divulgada que explicasse o porquê desta decisão.  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “Blu-Ray “Masterizado em 4K”

  1. Grande Paulo meu comentário é embasado na sua citação do DVD Superbit. Tive o filme Quinto Elemento com Bruce Willis, e na época percebia uma mudança sutil na qualidade de imagem, pois ainda não dispunha de uma TV LCD Full HD. Mas em relação aos Blu-Ray masterizados em 4k, eu diria que a iniciativa é válida pois nem todos terão possibilidade de possuir um player de Blu-Ray 4k, pois o preço é proibitivo. Vejo isso uma forma das distribuidoras contemplar cinéfilos de poucos recursos, que possuem Blu-Ray 2k. Seria uma boa forma de oferecer títulos gravados originalmente em 4k, convertidos em 2k, Garanto que a qualidade será bem melhor. Faria uma comparação. Quando as distribuidoras fazem a digitalização de títulos de uma Matriz original de uma película de 70 mm para Blu-Ray, e em outro título se obtém o Matriz originada por meio de uma película simples de 35 mm. A origem da Matriz fará toda a diferença na qualidade final do vídeo que foi duplicado. Ou seja um filme com Matriz “analógica” de 70 mm, ficará sempre com uma qualidade bem superior em comparação de uma Matriz de 35 mm. Vamos “sonhar” em ver filmes masterizados em 4k nas prateleiras de nossas lojas. Abração

    • Oi, Rogério,

      Pois é, sonhar não custa nada.

      Uma nota para você, em paralelo: a versão 4K de 2001: Uma Odisseia no Espaço deu zica, e a Warner resolveu fazer um recall nas lojas. Eu havia feito uma pré-compra, fui avisado que iria atrasar, só não imaginei quanto.

      Note que se trata agora de uma varredura do negativo de 65mm. Na versão em Blu-Ray anterior, que eu inclusive tenho aqui e gosto, a Warner reduziu o original para 35mm e escaneou esta cópia. Na nova transcrição várias diferenças apareceram, e a turma chiou, um pouco exageradamente, a meu ver. Mas, sem maia nem menos o disco foi coletado das revendas, eu, é claro, ainda não recebi nada nem há perspectivas de quando isto termina.

      Por outro lado, eu acho o recall saudável, seja lá porque motivo for. Quem já recebeu o disco esta querendo sabe o que foi corrigido, e se terão direito a devolver para troca.

      Por aí, você vê como esta coisa de transcrever material em película nesta bitola, porque quando se erra o resultado costuma ser desastroso.

      Abraço.

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