A superioridade do vinil e outras idiossincrasias do áudio

Os discos de vinil voltaram ao gosto popular, junto com a discussão dos méritos do som analógico em relação ao digital.

 

Infelizmente durante a minha vida eu li em revistas especializadas de áudio americanas e inglesas as opiniões mais estapafúrdias sobre o assunto, algumas emitidas com aquele ar professoral esnobe, que eu conheço muito bem.

A disseminação de opiniões pessoais, pouco importa o veículo, não é o problema, porque todo mundo tem o direito de emitir a sua opinião ou vivência, mas ao fazê-lo espera-se um mínimo de base para a gente ter certeza do que se está afirmando. Isto implica que quem fala com proficiência deve dar clareza a quem ouve ou lê que nada do que se está sendo exposto tem fundamento somente no achismo.

E se existe um campo do áudio no qual historicamente se encontram opiniões conflitantes até hoje, é o da discussão dos méritos do som analógico, em detratação do som digital, este último condenado por gente que se diz dotada dos clássicos “ouvidos de ouro”.

Se não existe margem de dúvida, sobre qualquer ponto de vista em qualquer assunto, a discussão se encerra por aí, sem que nenhuma das partes conflitantes chegue à conclusão nenhuma.

Ora, quando as primeiras imagens em osciloscópio do som digital foram publicadas, alguns audiófilos declararam que eles eram capazes de “ouvir” o picotado, resultante do intervalo entre um ponto de amostragem da onda e o seguinte. Como é que eles conseguiram ouvir isso, eu até hoje não sei!

Surpresa no YouTube

Como eu tenho hábito (e acho que não sou o único) de fuçar vídeos de variada procedência, eu esbarrei em um canal chamado de Modern Classic, onde se discute de tudo um pouco, incluindo computadores, jogos e áudio. Em um desses últimos, o autor, que propositalmente omite o seu nome, publica uma apreciação sobre 4 toca-discos analógicos, à guisa de discutir se algum deles vale a pena ser adquirido nos dias de hoje.

O autor do canal demonstra proficiência inquestionável, e assim eu decidi assistir este vídeo, para saber o que ele tinha a dizer. De fato, o discurso começa francamente pró-analógico, vinil neste caso, até que o autor começa a falar em ruídos de baixa frequência, que qualquer toca-discos produz. Depois ele afirma categoricamente que as diferenças básicas entre os vários modelos de toca-discos estão muito mais nas cápsulas usadas (eu discordo, mas enfim…), ou seja, é mais prático trocar de cápsula do que de toca-discos.

Surpreendentemente, o discurso pró-analógico muda de rumo, e o autor afirma que quando ele vendia toca-discos no passado distante, ele e a maioria dos seus colegas mentiam na cara dos consumidores.

Em um outro segmento do vídeo, intitulado “Look & Feel”, o autor vai mais além, em uma visão desafiadora, quando afirma que os motivos para se usar toca-discos estão na visão que o usuário tem da sua suposta superioridade sonora, e continua dizendo que se alguém está procurando “som de alta qualidade” que então compre um… Blu-Ray e saca um para mostrar aos seus inscritos:

 

A restauração de Lps às vezes é penosa!

A relação sinal/ruído dos elepês costuma ser baixa, às vezes com um ruído de massa provocado pela qualidade do vinil usado para prensagem. Eu tive um disco desses, cujo ruído parecia uma onda à beira do mar.

Existem recursos de restauração, uma vez o material transcrito para dentro do computador, com a ajuda de ferramentas adequadas, e nem é preciso ser um expert no assunto, coisa, aliás, que eu nunca fui para usar tais ferramentas.

Durante anos, e isto já faz muito tempo, eu fiquei concentrado em gastar o meu tempo disponível para passar o restante da minha coleção de elepês para CDs, na expectativa de nunca ver aquelas gravações remasterizadas por quem de direito. Com o tempo, vários CDs com este material foram lançados, mas muitos continuam fora de catálogo até hoje, o que sempre justificou o esforço de restauração.

Recentemente, eu achei no Ebay o disco “Billy Blows His Horn”, no original em estéreo, que eu nunca tive. Nele aparece o excelente trompetista Billy Butterfield e sua orquestra, que eu tive a chance e a sorte de ver no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, junto com o grupo “World’s Greatest Jazz Band”. O repertório, embora construído com Standards de música jazzística, se inclina para algo bem mais popular, mas agradável de se ouvir. Na gravação é perceptível a influência de arranjo vocal do folclórico maestro Ray Conniff, em cuja orquestra Billy foi solista.

Quando este Lp chegou às minhas mãos, eu pedi socorro a um amigo, que tem instalado em casa um toca-discos Sotta Saphire, montado com braço Fidelity Research e uma cápsula Grado Prestige Gold novinha.

Ninguém podia prever o péssimo estado de conservação do disco, com um ruído que chegava a abafar o coral que está no background da orquestra. Eu cheguei a duvidar que conseguiria recuperar o conteúdo, por estar afastado deste tipo de trabalho há tanto tempo. E o meu amigo achou a mesma coisa.

Voltei aos alfarrábios. No passado distante ouvi vários conselhos sobre restauração, vindos de profissionais de estúdio. Nos últimos anos deste trabalho eu usei o programa Adobe Audition, que era idêntico ao Cool Edit Pro da Syntrillium, companhia esta que fechou e cedeu seus direitos para a Adobe.

Uma ferramenta das melhores que eu usei foi o do plugin “ClickFix”, adquirido por fora. Sem ela, o meu esforço seria quase inútil. Eis aí a comparação com o resultado obtido de uma das faixas com menos ruído:

 

 

O ClickFix detecta ruídos de impulso de maneira ajustável, muito embora seus pré ajustes sejam competentes o suficiente para resolver a maioria dos casos. É possível inclusive ouvir somente os ruídos isoladamente, para se ter uma ideia se a remoção pretendida não afeta o conteúdo musical.

A tarefa em si nunca é simples. Em alguns casos se é obrigado a isolar o ruído, mas deixando uma margem em ambos os lados, de modo a que o ClickFix e similares possam interpolar dados e assim restaurar o que está faltando.

Eu aprendi que no ambiente digital o computador trabalha com áudio fazendo o que ele faz de melhor: cálculo! É possível determinar com alta precisão que frequências serão afetadas quando um filtro qualquer é aplicado. A amostragem da onda facilita a aplicação de equalização ou filtragem, sem risco do restante do programa, mas mesmo assim os filtros são controláveis e a aplicação dos mesmos podendo ser ouvida sem comprometer o arquivo de áudio em exame.

 

 

Eu dei sorte de ter conseguido recuperar totalmente o disco, mas sinceramente não quero passar por tudo aquilo de novo. O ruído era tanto que eu cheguei a duvidar que iria conseguir recuperar tudo.

Eu até entendo a nostalgia daqueles que não admitem parar de ouvir elepês. Mas, diante do progresso que se alcançou com os novos codecs de áudio, notadamente pelo Dolby TrueHD ou com o DTS HD MA, voltar atrás é para mim inconcebível. Foram muitos os anos sem solução para o ruído analógico, portanto o autor daquele vídeo blog está coberto de razão!

Bem antes de tais codecs aparecerem DSD e PCM nos provaram ser possível se conseguir áudio de resolução alta. Em todas as minhas restaurações de elepês eu raras vezes passei de 44.1 kHz de amostram e 16 bits de resolução para a conversão e limpeza. Se fosse o caso, bastaria capturar o áudio com 96 kHz e 32 bits de resolução. Aliás, este é o processo de captura recomendado pela Syntrillium para um melhor trabalho de restauração em áudio com problemas.

Mas, isso sou eu. Quando eu vejo nostalgia de elepês a primeira coisa que me vem à cabeça é falta de clareza ou teimosia, mas e daí? Cada um gosta do que bem entender, quem sou eu para me posicionar contra?  Outrolado_

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Leia também:

O nascimento, vida e morte da fita cassete

 

 

Conectores para vídeo

 

Que falta um subwoofer faz!

 

LFE, o canal de graves, este ainda ilustre desconhecido

 

A transição da gravação analógica para digital

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

11 comentários sobre “A superioridade do vinil e outras idiossincrasias do áudio

  1. Olá Paulo que assunto espinhoso hein ? Mas me permita oferecer uma opinião despretensiosa e apartidária sobre este tema, com base nos sistemas de reprodução de áudio a qual que tive oportunidade de trabalhar. Desde que ingressei nesta área profissionalmente no fim da década de 70 (para não me estender com detalhes desnecessários), a melhor referência de som no amplo expecto de 20hz a 20Khz (mas possuo audição de certos animais), de todo tipo de material que já ouvi que consideraria de qualidade absoluta, no prospecto de áudio analógico (voz e música), é proveniente de uma máquina de Gravação Open Reel de estúdio de gravação, marca Studer A-80 MK-II, em gravação/reprodução na velocidade de 30 ips. Já quanto a dezenas de sistemas de áudio digital, nos mais variados tipos de mídia que tive contato, tanto em fita magnética quanto as de discos ópticos, eu citaria as fitas magnéticas digitais do sistema desenvolvido pela Sony chamado A-D.A T. Pois recorrendo a minha audição (apesar que gosto não é referência); profissionalmente sempre precisei ter audição aguçada, e preciso me submeter anualmente a exames de audiometria, diante deste preambulo, eu posso afirmar que esse sistema digital em fita magnética, apresentou resultados muito próximos de uma gravação em analógico que citei acima. O A-D.A.T. só perdeu nas profusão de frequências graves muito profundos, utilizando-se de Sonofletores de referência de estúdio, que quase ninguém pode comprar pelo seu preço absurdo. Bem seria essa minha “modesta” opinião sobre este tema, mas “não” compartilho da opinião que o Vinil é o melhor. Abração

    • Olá, Rogério,

      Se o assunto ainda é espinhoso foi por conta da não aceitação do áudio digital, por conta de puristas de outrora, e isso chegou até em filmes, como por exemplo “The Rock”, onde o personagem de Nicholas Cage é perguntado porque ele tinha gasto uma fortuna em um elepê dos Beatles, e ele responde que porque é raro e… soa melhor. Em filmes e seriados atuais a profusão de toca-discos em cena é inacreditável, parece e deve ser propaganda.

      O áudio digital nunca foi propriedade da Philips. Historicamente sabe-se que o primeiro protótipo do CD era analógico, seguindo o rastro dos videodiscos, cuja trilha sonora era analógica (e cheia de ruídos). Não importa discutir isso em um comentário, mas basta dizer que a decisão de mudar o CD para digital, e prever um bitstream com sub-códigos foi mais do que acertada.

      Sobre o ADAT, em uma das vezes que eu fui aos estúdios da Som Livre o Nolan me mostrou vários deles aposentados, e um dos motivos era porque dava muito defeito. Depois, como você sabe, só ficaram aquelas máquinas estupendas da Studer, para arquivamento, e o resto foi substituído por ProTools.

      Eu não tive nem chance de ouvir um aparelho daqueles, mas acredito no que você está dizendo.

      Ah, meu amigo, sorte a sua que ainda tem boa audição. A minha já foi para o espaço há muito tempo. Acabo de fazer 70 anos, e embora me digam que eu não aparento toda esta idade, a verdade é que eu sinto saudade da época em que eu ouvia próximo de 15 kHz. Que o teu anjo-da-guarda te conserve assim por muito tempo!

      • Paulo um adendo (quando descrevi acima sobre possuir audição dos animais houve um erro), a palavra “não” foi suprimida. O correto é “não” possuo audição dos animais como cães e morcegos, isso é um tremendo absurdo concorda ? Mas tenho algumas receitas para conservar uma boa audição, ficar bem longe de fontes sonoras ruidosas, procurar fazer audição de áudio no trabalho, numa sala de ótima acústica com volume baixo, evitar a qualquer custo o uso de earphones ainda mais do tipo intra auricular. Isso tudo ajuda, pois não desgasta os cílios das células da audição, vital para manter bons níveis de acuidade auditiva.

        • Eu entendi, é claro, mas de qualquer forma te desejo conservar a sua audição o maior tempo que você puder. Sem os nossos ouvidos em ordem não é possível apreciar a música. Para mim, ficar sem ouvir música, é morrer sem ter morrido… E acho que você, mais do que todos os leitores, entende bem isso!

    • As vitrolas voltaram com força pelo mundo, como sempre no brasil, as tecnologias sempre chegam atrasadas, mas Vitrola & Radiolas, inverteu este processo, lançando no brasil pioneiramente nas principais feiras do setor moveleiro como: Feimóbille e a High design em SP 2 modelos de som ambiente com um Design retrô aos anos 60/70, com funções incriveis como: toca discos de vinil, Fm, Bluetooth,SD, Pen Drive entrada auxiliar e de microfone etc… Vitrolas & Radiolas, tem resgatado o design,som e levado o ouvinte a mais pura nostalgia, isto é viver, não tem preço. vele lembrar que quase todos os toca discos vendidos hoje são de péssima qualidade, cuidado!!!

  2. Paulo,

    Saudações. Vi que você estudou em Cardiff, você visitou a mais antiga loja de discos do mundo? Poizé. Esse debate sobre qualidade de som é algo que talvez seja um debate sobre o real significado sobre a diferença semântica entre “o que é bom” e “o que eu gosto”. É muito comum misturar isso quando não se presta muita atenção ao que se diz. Eu GOSTO do tal “som do vinil”, tenho um equipamento valvulado muito bom, bom o suficiente para não precisar de aquecedor durante o inverno (moro em Curitiba). Tenho mais discos que amigos e todos os dias gasto algumas horas no meu somtuário. Muito mais que “curtir música” (“curtir” é para nós, os baby-boomers) discos de vinil é um hobby. Existem lendas urbanas que os discos são barulhentos mas, entre os hobbistas, sabe-se que basta os lavar para soarem como (argh) CDs …
    Pois. O importante é a música (mesmo que os Beatles sejam comunistas). E não esqueçam de usar somente cápsulas “moving coil”.

    • Olá, Wandique,

      Lá em Cardiff eu frequentei várias lojas de disco, um hábito que eu tinha desde menino, e aquilo por lá naquela época era um verdadeiro paraíso para quem gosta de entrar na loja e vasculhar disco a disco. Duas delas estavam na principal rua de comércio da cidade (Queen Street), a HMV e a Virgin, que abriu quando a gente morava lá. Infelizmente a quebradeira de lojas deste tipo chegou lá também, porque recentemente eu soube que Virgin, City Radio, Sound Options e outras fecharam as portas. Parece que a HMV ainda está lá.

      Desnecessário dizer que este meu hábito morreu de morte morrida, quando lojas como Saraiva, por exemplo, também fecharam. As boas lojas do passado, como a Gramophone ou a Modern Sound (RJ) ou a Breno Rossi (SP) também desapareceram.

      Sobre áudio, depois de testemunhar aquele debate vexaminoso entre analógico e digital, em que eu notava que as pessoas ficavam apenas no emocional e sem argumentos técnicos sólidos, eu fiz uma promessa a mim mesmo de nunca mais discutir áudio nessas circunstâncias, exceto com o pessoal mais chegado, dois deles conheciam eletrônica a fundo. Ou seja, cada um gosta do que quer ouvir, e note que eu conhecia gente muito rica naquela época, com equipamentos que nem no mais louco dos meus sonhos eu poderia comprar,

      Na década de 1970 eu estudei corte de acetato, com vontade de sair da UFRJ. Esse delírio terminou quando eu fui fazer um pseudo estágio na sala de corte da Polygram. Um amigo meu, chamado Sólon do Valle, que fazia engenharia, havia passado por lá e tinha me contado um monte. A Polygram tinha um técnico de corte chamado Joaquim Figueira, que sabia tudo (realmente os cortes dele eram exemplares). Na época que eu estive lá ele não trabalhava mais na Polygram. Eu vi algumas coisas naquela sala bastante criticáveis, mas como eu era visita eu fiquei quieto.

      Muita gente que adora Lps não tem noção das limitações deste tipo de mídia. As fitas de dois canais são “preparadas” para contornar algumas dessas limitações, seendo que os tornos mais modernos (o da Polygram era um Neumann) trabalhavam com um deck equipado com uma cabeça de pré-leitura, que instrui o torno em como modificar alguns parâmetros do corte, de forma e evitar distorções grosseiras. Mas, a mídia não ajuda, entre vários motivos, por conta da queda vertiginosa de velocidade linear, à medida que a agulha de corte (ou reprodução) chega próxima do centro do acetato. Muitos estúdios americanos (e aqui também) usavam compressores para aumentar artificialmente o volume do som de modo a mascarar o ruído de massa do vinil.

      Isso tudo me mostrou o desastre que começa na sala de corte, e se o audiófilo acha que está ouvindo no vinil o som real da master de gravação ele estará redondamente enganado.

      Com aquele debate inútil entre analógico versus digital ninguém se deu ao trabalho de investigar porque alguns CDs soavam áspero, e a resposta, meu caro, estava no erro de usar a fita master sem aqueles retoques que “amaciavam” o som para o corte do acetato. Era ali que o ouvinte casual tinha noção do som agressivo das gerações de fitas mais próximas da fita alfa. Isso só foi corrigido com o tempo. Até lá os estúdios colocavam mensagens nas capas dos CDs dizendo que “por conta da resolução mais alta” o disco poderia revelar as falhas das fitas analógicas originais.

      Então, o resumo da ópera, no qual eu me auto disciplinei, passou a ser o seguinte: Cada um que goste do que quiser e que seja feliz com a escolha. No meu lado, eu ainda continuo usando programas no meu computador para resgatar transcrições analógicas do meu interesse, e que estão cheias de problemas, causados pela idade das fitas. Eu não tenho mais nenhum front-end analógico em casa, mas os amigos me mandam remasterizações, uma hora ou outra. Em uma dessas bravatas eu ajudei um amigo a recuperar as gravações do Quarteto 004, cuja master não existe mais. Ele fez parte do trabalho e eu fiz a outra. O resultado foi lançado em CD e ficou bom, segundo ele (veja em https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2019/07/13/quarteto-004-tem-editado-em-cd-o-unico-album-do-grupo-gravado-com-tom-jobim.ghtml). Mas você não vai achar o meu nome lá. Não me importo, sinceramente. O importante é que no domínio digital a limpesa é enormemente facilitada, e eu não vou abdicar nunca deste tipo de recurso!

      • Paulo,

        Antes de mais nada, muito obrigado por responder e pelo tempo que você dispendeu (tempo é vida!).
        De uma maneira ou outra chegamos à mesma conclusão: cada um cai do bonde como pode (ou como quer). A minha experiência é que quando se trata de música (estudei flauta transversal na Escola de Música e Belas Artes do Paraná) a coisa está ligada ao emocional. E a reprodução segue o mesmo caminho: o que conheci de música até a minha adolescência foi através de discos de vinil (ou “vinyl” como “eles” dizem). Desta maneira ao ouvir música num toca-discos me leva de volta, numa abordagem proustiana, à minha infância e adolescência. Como naqueles dias o meu “equipamento” era de uma qualidade lamentável (mesmo para os parâmetros da época), o que tenho hoje é um zilhão de vezes melhor. Assim eu recupero “o tempo perdido” de uma maneira mais lúdica.
        Em termos técnicos a reprodução é exatamente isso: uma reprodução. Mesmo “a cópia fiel” (assistiu o filme?) é uma cópia, não é o “de verdade”.
        Talvez essas discussões vazias são fruto da ideia estapafúrdia que grassa a nossa sociedade: todo mundo tem “a sua verdade” e todo mundo (todo mundo é muita gente) tem razão. Te agradeço ter lido até aqui. Deixe-me voltar a ouvir os Beatles, mesmo eles sendo comunistas …

  3. Paulo,

    Ah sim, sim, o órgão hammond tem um lugar especial nas minhas lembranças. Creio que é o timbre que me fisgou, de uma certa maneira me lembra a voz humana chorando, se lamentando, emitindo sons inexprimíveis, pois nem sempre a linguagem falada consegue, nas suas limitações óbvias, expressar coisas que estão lá no fundo da alma. E isso é uma pista para para desenvolver o teu post sobre “a influência da música na psique humana”. Me parece que esse assunto pode ter uma abordagem relacionada à estrutura musical, especificamente às sequências harmônicas: existe uma forma “natural” de encadeamento harmônico dentro de cada tonalidade. É claro que a música é feita não somente de sons harmônicos mas “acidentes” que a torna fluida como um discurso verbal. Como a nossa herança musical é a música européia temos introjetado no nosso cérebro a harmonia “tradicional” que, mesmo sem sabermos a teoria, nos conduz na fruição e composição musical. Isso foi aproveitado lindamente pelos compositores impressionistas que, da mesma maneira que os pintores impressionistas usavam as cores, eles usavam acordes. Explico. Quando o pintor queria que as pessoas vissem a cor verde, pintava um traço amarelo ao lado de um traço azul e, à distância, as frequências de luz se intrelaçam e o cérebro “vê” verde. Da mesma maneira (ou quase) os compositores fazem uma sequência de acordes de maneira que o nosso cérebro “ouve” a acorde seguinte, mesmo ele não sendo escrito. Essa técnica também é aplicado no próprio acorde. Esses “experimentos” foram desenvolvidos extensamente durante o século 20 até que, na década de 1950, o John Cage propôs a “não música”, se assim se pode dizer, ao “compor” o famoso 4’33” (já assisti uma orquestra “interpretando” essa composição e eu mesmo já a interpretei).
    Esse movimento de se aproximar da música com uma nova abordagem começou com Wagner que começou a propor uma nova forma na ópera e logo em seguida outros compositores se sentiram à vontade para ousar outras abordagens que nos são conhecidas (pelo menos para os curiosos). Desta forma eu entendo que o que nos atrai à música é que ela é uma ferramenta para exprimir o inexprimível donde podemos concluir que esse “inexprimível” é universal.

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