Atração pela obsolescência e tecnologia ultrapassada

É estranho assistir vídeos no YouTube com pessoas fazendo incríveis malabarismos para consertar um aparelho obsoleto e que não desempenha bem. Existe atração pela obsolescência?

 

Eu sinceramente não sei qual o motivo, que imagino ser muito forte, pelo qual pessoas no mundo todo se apegam com equipamentos eletrônicos abandonados décadas atrás. Alguns tentam reinventar a ideia de que um desperdício de tecnologia aconteceu e não teve retratação, como nas brigas entre elepês e CDs, ou fitas cassete versus elepês, e vai por aí.

Mas, o que mais me impressiona ainda é ver gente fazendo vídeos para o YouTube, mostrando terem retirado do lixo (é isso mesmo), ou comprado no Ebay por preço vil, um dado equipamento que o cidadão que posta o vídeo vai querer recuperar a qualquer custo.

Eu aprendi o termo “recap”, do inglês, que trata da substituição dos capacitores de um circuito eletrônico. Capacitores tendem a “secar” com o tempo, dependendo do tipo, ou se estragar mesmo, por vazamento, por exemplo. Com as pontas de um multímetro pode-se verificar a condição de cada capacitor. Então, faz sentido trocar todos os capacitores por outros mais modernos, mesmo que os originais ainda estejam funcionando corretamente.

 

 

Toda esta trabalheira, e por quê? Poderia ser falta do que fazer, nostalgia, aprender sobre o passado da eletrônica, inconformismo com as mudanças tecnológicas vigentes, etc.

Se não for por esses motivos, eu poderia talvez argumentar que seria “falta de sanidade mental”, como desculpa, e aí se poderia aventar um novo tipo de estado de doença. Senão vejamos: a eletrônica moderna retirou de cena problemas sem solução do nosso caminho, junto com a integração de componentes realizada em circuitos e placas, que por anos antes estavam somente na nossa imaginação.

E não é preciso ir muito longe. No passado a gente sofreu com circuitos de sintonia de canais de TV ou rádio, mas hoje é tudo cada vez mais automático e extremamente preciso. Se a emissora não for captada como devia, a culpa provável é do local de recepção e/ou da antena.

Tubos de imagem CRT coloridos com erro de convergência me fizeram comprar na adolescência um gerador de sinal, e depois fazer um esforço descomunal para acertar os pontos que compõe cada pixel RGB, sempre com algum tipo de erro. A indústria levou anos para resolver isso, mas os tubos foram logo depois substituídos por telas de fato planas, como plasma e LCD, todas as duas sem erro de convergência!

Quem, como eu, colecionou um monte de elepês ao longo das décadas, deve ter se irritado com o estalido (ruído de impulso), com a compressão de sinal e a distorção nos sulcos próximos ao centro do disco. E ainda sofreu com o alinhamento obsessivo de cápsulas, sem o que haveria erro de trilhagem auditivamente óbvio.

Quando a Telarc lançou a sua hoje lendária gravação da peça “1812”, com o disco cuidadosamente prensado na Teldec, com o uso de um processo revolucionário chamado de DMM, o desafio era se a agulha não saía do lugar ou pulava nos trechos contendo o som dos canhões. Pois eu tive uma cápsula que saía do sulco, dando um pulo para cima, e não era aconselhável aumentar o peso em cima do disco, mas sim trocar de cápsula.

Quando a Philips lançou o CD em fins de 1982, quem ouvia música clássica entre os meus conhecidos ficou aliviado com a ausência de agulha na reprodução do disco. A Telarc relançou aquele disco do “1812” em CD e depois em SACD, com zero de distorção ou erro de trilhagem.

Faz sentido?

Eu poderia ficar aqui citando pilhas de exemplos de modificações importantes em mídias e processos de gravação, na eletrônica convencional, mas para quê? Quem entre nós foi adiante e apagou este tipo de passado, e/ou se sentiu aliviado de não estar diante de problemas sem solução, deixou para trás e possivelmente até se esqueceu de que já passou por tudo isso.

Eu, não! Eu entendo que é preciso tirar lições do passado, não importa se é da tecnologia ou dos problemas pessoais de cada um. Porque é com o erro (!) que nós somos compelidos a aprender. Eu tive uma professora no mestrado que dizia que não se devia jogar resultados de fracassos no laboratório fora, mas sim fazer deles uma reflexão sobre a causa do erro. E a ciência mesmo nos mostra que grandes conquistas vieram de grandes tentativas fracassadas.

Por isso, o progresso na eletrônica seguiu este caminho de erros e problemas, até chegar ao ponto em que equipamentos fazem muito mais e com melhor qualidade.

A criação de circuitos integrados (conhecidos pelo jargão “CI”), foi o que, em última análise, permitiu essa evolução, seguida pela integração de funções e pela miniaturização de componentes. É o que nos mostra, por exemplo, um telefone celular do tipo “Smart”, que tem tudo lá dentro, às vezes com uma câmera para fotos e vídeos com até 4K de resolução. Esta câmera, de tamanho ultra reduzido, é capaz de fazer frente a câmeras de grande porte, para uso profissional. Não é à toa que vários dos tradicionais fabricantes de câmera estão fechando as portas!

A integração de funções em um mesmo circuito integrado permitiu, por seu turno, que todas elas funcionassem no mesmo batimento (“clock”), evitando assim erros decorrentes da defasagem de tempo nos sinais elétricos que percorrem os circuitos, caso eles fossem separados.

Para a reprodução de mídia digital de áudio, foi o controle deste desfasamento, conhecido como “jitter”, que permitiu a evolução dos drives óticos de transporte e dos conversores (DACs) do sinal digital para o analógico.

Então, ao invés de torcer para um elepê importante da minha coleção nunca arruinar os sulcos, eu me vejo diante de uma mídia, que muitos consideram já obsoleta, tocando cada vez melhor, passados 37 anos do seu nascimento!

Eu faço esforço para entender porque pessoas se apegam à eletrônica do passado de uma forma sacralizante. Se fosse apenas pela memória, eu iria parabenizar a quem toma a iniciativa de fazê-lo, colocando peças em um museu, por exemplo. Mas, se for para glorificar o passado e enxovalhar o atual, eu estou fora. Faz sentido?  Outrolado_

 

 

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “Atração pela obsolescência e tecnologia ultrapassada

  1. Olá Roberto Elias. Concordo inteiramente que não faz sentido lps ou cassetes no mundo digital, MAS, há outra questão que me impeliu a comprar amplificadores de 40 anos atrás, daqueles com vu analógicos: a sonoridade ( uma vez revisados por técnicos competentes ), o material de que eram feitos; alumínio, vidro, aço e finalmente, a beleza das peças, quase uma obra de arte. Há equipamento similar hoje? Sim! Mas a que preço? 25, 40 mil reais ou mais. Fui ao delírio quando ouvi música de concerto, via YouTube, através de um headphone SONY de estúdio a partir de um desses aparelhos antigos, revisados.

    • Oi, Felipe,

      Eu também tive bons equipamentos no passado, e concordo que os melhores equipamentos de hoje em dia são muito caros. Ainda tem muito equipamento com arquitetura antiga por aí, só que o preço também é elevado.

      Mas o meu texto se refere a pessoas obsessivamente tentando recuperar equipamentos que outros descartaram no lixo. Que se faça isso para demonstrar como eram os aparelhos de então, eu até entendo, mas recuperar por recuperar, e para usar?

      A propósito, eu fiz um enorme sacrifício financeiro para adquirir um A/V receiver Denon da última geração anos atrás. Não troco este aparelho por nenhum outro, e olhe que eu já vi de tudo na casa de amigos cheios da grana. O Denon tem construção muito mais sólida do que os que você citou!

      O headroom de amplificação de um receiver desta classe é derivado de um sofisticado circuito de alimentação, cujo design só foi possível com a evolução da eletrônica.

  2. Paulo que bela sacada essa pauta com tralhas inúteis, que relutamos em nos desfazer. Tenho vários desse tipo ainda guardadas. Outras acabaram estragando e foram parar na lixeira. Mas alguns itens icônicos, como Walkman Sony, Player VHS da JVC estéreo; e um aparelho celular que foi coqueluxe no passado, um Motorola Microtac Elite cdma que ainda funciona. Sei lá, não sei explicar esse comportamento do tipo “mofolândia” Só sei que esses objetos certamente nós ainda mantemos guardados, por uma questão de memórias lincadas a eventos passados. O interessante é abrir de forma despretensiosa um armário ou baú, e encontrar esses aparelhos e liga-los, e notar que foram úteis em determinada época. Isso se traduz em saudosismo puro Paulo.

    • Oi, Rogério,

      Eu sei como é duro deixar o saudosismo de lado, mas eu fiz muitas “limpesas” em casa e doei coisa p’rá burro. Recentemente, eu doei HDs da minha antiga montagem, em perfeitas condições de uso, para um amigo que anda com dificuldade de montar o computador dele e precisa muito de espaço em disco.

      Agora, meu caro, em certos aspectos frente à inovações importantes na tecnologia, não volto atrás nem morto!

      Como você sabe muito bem, há anos saímos da era Dick Tracy e vimos surgir telefones poderosos, cuja função de comunicação acabou ficando secundária. O meu celular Moto Z2 tem uma bateria Snap acoplada, que deixa o aparelho com carga em uma média de 3 dias mais ou menos.

      Eu vejo essa dependência do celular para acessar certas coisas, como conta de banco, por exemplo, uma coisa nefasta, mas fazer o quê? No meio da estrada, o celular te traz socorro na maioria das vezes que você precisa e isso é um recurso que eu não quero perder.

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