Drácula de 1979 volta à vida

Drácula, filme de John Badham de 1979, recebe as cores de volta em uma edição de colecionador lançada pelo selo Shout Factory. Alguns problemas vieram junto com a cor, apesar da transcrição em 4K, mas o consumidor fica sempre na defensiva.

 

Não, não é trocadilho, Drácula, de 1979, filme do diretor John Badham, havia sido mutilado em 1991, em plena era Laserdisc, “drenando” (novamente, sem trocadilho) as suas cores originais e tornando o filme praticamente preto-e-branco.

Naturalmente que os protestos emergiram mais tarde pela Internet e quando se imaginou que a edição em Blu-Ray iria resolver isso, nada aconteceu! E ficou assim até agora.

A Shout Factory licenciou o filme da Universal, remasterizou o negativo a 4K e relançou o filme em uma edição de colecionador. Um dos discos contém a versão dessaturada (desbotada), de 1991, e o outro disco a versão de cinema, com todas as cores no seu devido lugar.

O disco custou a chegar às minhas mãos, e logo de cara eu percebi que junto com as cores apareceram várias cenas em que a imagem não tem resolução suficiente, semelhante a uma câmera fora de foco. Felizmente, o resto do filme ficou intacto. E notem que eu não fui o único a notar isso.

Fãs do filme especulam que um rolo inteiro do filme passou por este tipo de problema, e neste ponto 4K no restauro não serviram para nada. Eu chamaria isso de falta de controle de qualidade, e acho que deveria ser revisto e substituído de quem comprou, mas duvido que a Shout Factory o faça.

 

 

A despeito deste problema de falta de nitidez em algumas cenas, a reintrodução das cores traz ao filme o seu impacto original de 1979 nos cinemas. Eu cheguei a pensar em traçar paralelos com a versão intencionalmente desbotada de 1991, mas alguém fez isso antes de mim e publicou os resultados, que eu compartilho abaixo. O autor do vídeo chama o restauro de “35 mm Silver Screen Edition” (em referência à tela de cinema), mas o disco da Shout nunca teve este título.

 

 

Originalmente, Drácula foi rodado em 35 mm Panavision, com som Dolby Stereo. Durante a febre das exibições em 70 mm, o filme foi ampliado e lançado com esta bitola, e eu o assisti assim no falecido cinema Tijuca, aqui do bairro.

A sessão me traz memórias por causa do cinema estar vazio, os operadores falando alto um com o outro, e resolvendo rodar a abertura musical (que se podia ouvir junto com o jornal da tela e trailers) antes do filme começar.

Nas edições em home vídeo nenhuma delas exibe a Abertura, e nem a trilha da cópia em 70 mm. O primeiro DVD lançado pela Universal nem anamórfico era, um desastre visual em todos os aspectos, depois retificado no segundo DVD. Naquela época os estúdios achavam que DVDs não precisam ser corrigidos, e este paternalismo custou caro ao colecionador! A Universal está no grupo que mais lançou DVD em formato 4:3, quando já se sabia que a perda de resolução era irreparável.

A trilha sonora de todas essas edições, inclusive a nova da Shout, nunca passou de dois canais, portanto cópia similar à da trilha Dolby Stereo. As trilhas dos filmes dessa época pouco usavam o som surround, e neste caso é o que acontece na reprodução do disco novo, mesmo usando o recurso de “upmixing”, como o Neural:X.

O filme

Super explorado, e com um personagem estigmatizado pela personificação sui generis de Béla Lugosi, Drácula se divide entre terror e sexo. No lado político, digamos assim, Drácula é um homem da nobreza europeia, e como tal suga o sangue das pessoas em classes menos privilegiadas. Intencional ou não, o fato é que Drácula é um parasita que se nutre da desventura de terceiros.

O que muda com a versão de Frank Langella é a intenção de não repetir Lugosi, e ao fazê-lo o ator preferiu dar um toque de caráter sedutor ao personagem, tipo fala suave, olhar penetrante, etc.

Claro que não há espaço para terror, a intimidação ocorre em outro nível. O caráter sexual de Drácula está em seduzir a vítima, hipnotizando-a até que ela se entregue voluntariamente. E não é assim na vida real também?

O ator Frank Langella sofre de uma doença chamada de Nistagmo. Em tomadas com planos em close é possível ver nitidamente as oscilações involuntárias em ambos os olhos, mas o interessante é que no filme a doença lhe serve na composição do personagem.

Drácula de 1979 foi rodado na Inglaterra, com atores de primeira linha. A presença imponente de Sir Laurence Olivier traz ao filme um toque de classe, apesar de o ator não estar bem de saúde na época das filmagens. Ao seu lado, Donald Pleasence garante ao filme a credibilidade que ele merece.

Curiosamente, a atriz Janine Duvitski se lança em um papel dramático, apesar de ser ela uma excelente atriz comediante. Mas funciona muito bem, assim como o resto do elenco de suporte.

Finalmente, a trilha sonora majestosa de John Williams, com tom dramático no início e no fim do filme, principalmente, dá uma estatura importante ao conjunto da obra, que aqueles que deram a sorte de ter visto a cópia em 70 mm puderam ter a chance de testemunhar.

O ideal, francamente, seria relançar Drácula em 70 mm nos cinemas, mas diante da realidade atual dos exibidores, fazer o quê?

Felizmente, para o colecionador sério, as cores foram recuperadas, como aconteceu com Operação França, há algum tempo atrás. Eu espero que esses diretores parem de brincar com os negativos e respeitem o cinéfilo, que não concorda com este tipo de estrepolia revisionista. Outrolado_

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Operação França relançado com as cores corrigidas

 

A minha primeira experiência em uma sala de cinema com Dolby Atmos

 

Godzilla 1998 em 4K, HDR e Dolby Atmos ficou sensacional

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “Drácula de 1979 volta à vida

  1. Olá Paulo… Drácula juntamente com Frankenstein são as referências dos Blockbuster’s do gênero de terror ! Essa versão desse clássico do cinema do ano de 1979 eu ainda não assisti, pois para mim Drácula de Bram Stoker’s de 1982, com um elenco de galáticos sempre foi um marco para mim. Mas vou procurar ver se encontro essa versão mais antiga para opinar melhor. Um abraço

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