70 anos de TV aberta no Brasil

70 anos de TV no Brasil. Poderia ter sido melhor?

A TV aberta faz 70 anos no Brasil, ainda cercada de polêmicas e profecias apocalípticas, nenhuma das quais se confirmou até agora.

 

Em 18 de setembro de 1950, Assis Chateaubriand coloca no ar a TV Tupi Difusora, canal 3, em São Paulo. O início foi tumultuado; uma das duas câmeras RCA pifou, mas o lançamento aconteceu assim mesmo. O magnata da imprensa também importou aparelhos de TV para que o público pudesse assistir o que estava se passando.

Os técnicos americanos instalaram o estúdio e o transmissor, equipamento que chegou aqui em 1949. Quando o trabalho deles terminou, Chateaubriand mandou começar a transmitir imediatamente, e isso aconteceu em cerimônia solene, às 22:00 horas daquele dia.

Historiadores relatam que o improviso começou a tomar conta, o que é compreensível, já que aquele novo veículo de comunicação nunca havia sido testado. Alguns dos sobreviventes daquele momento, como Lima Duarte e Lolita Rodrigues, vêm relatando com detalhes tudo o que aconteceu quando a TV brasileira começou a operar.

Agora, 70 anos se passaram, e muitos comentam que a TV aberta está com os seus dias contados, mas eu, sinceramente, duvido, e faço pouco.

Acho que o que se deveria fazer ao relembrar a data de 1950 seria uma análise cuidadosa deste histórico. A criação e sucessivos fechamentos de emissoras de TV aberta, inclusive e principalmente das TVs Tupi, outrora compondo a maior rede de emissoras do país, mostram como esses 70 anos foram carregados de polêmicas e controvérsias.

Para o leitor que quiser ter uma ideia de como foram os momentos mais críticos da TV brasileira eu sugiro a leitura do livro Gloria In Excelsior, escrito por Álvaro de Moya, um dos principais artífices da construção da TV Excelsior (São Paulo, canal 9 e depois Rio de Janeiro, canal 2), emissoras que inovaram na estrutura de programação, em um nível nunca antes realizado, mas que depois foi vítima da intolerância e perseguição dos militares, que fecharam a Panair e depois a Excelsior, ambas do mesmo dono. O livro de Moya pode ser baixado para leitura.

 

A TV Excelsior usou modelos de organização operacional nunca antes usados, e muito bem sucedidos. Além disso, realizou experimentalmente a primeira transmissão a cores, em meados de 1962, 10 anos antes da oficialização do sistema PAL-M. Em 1964, também a TV Tupi de São Paulo passou a transmitir em cores o seriado Bonanza, aos sábados à noite. Ambos os esforços usaram o padrão NTSC, que acabou não sendo aprovado pelos militares mais adiante.

Outra emissora que irradiou polêmicas e acusações após a sua inauguração em 1965, foi a TV Globo, canal 4 do Rio de Janeiro. Dotada dos melhores e mais modernos equipamentos da RCA, a emissora tinha baixíssimos níveis de audiência. A proposta inicial dos seus proponentes, através do também magnata jornalista Roberto Marinho, era a de oferecer programas de alto nível, com uma imagem de tirar o fôlego.

Em curto espaço de tempo, convencida de que este modelo de alto padrão teria vida curta, a direção da TV Globo partiu para a baixaria completa, tirando das outras emissoras os artistas que lhes davam uma audiência de massa, e assim começou a ter uma hegemonia de audiência difícil de ser batida.

Quando algum programa das outras emissoras dava certo, a turma da Globo se mexia para evitar a sua continuidade. Eu ainda era adolescente, quando ouvi o relato de um caso esdrúxulo que me foi contado por um técnico de TV da área: o seriado americano “O Homem de Seis Milhões de Dólares” fez imenso sucesso na TV Tupi, mas de uma hora para outra o seriado saiu do ar.

A TV Globo teria comprado toda a segunda temporada (nesta época em película de 16 mm, com cópias dubladas) e nem a colocou no ar. Se foi verdade ou não, o fato é que, quem viveu esta época, tomou conhecimento pela imprensa de todas as alegadas trapaças daquela emissora, inclusive do acordo Time-Life, proibido pela legislação brasileira, ao ponto de seus detratores a terem apelidada maldosamente de “Vênus Platinada do Jardim Botânico”, em referência ao bairro onde a emissora havia se instalado.

Depois de 70 anos, onde nós fomos parar?

Aparentemente, em lugar nenhum. Eu estive no grupo dos que se entusiasmaram com a introdução da HDTV, malgrado as polêmicas políticas que a cercaram. As universidades envolvidas naquele projeto já o tinham pronto muito antes do formato ter sido implantado no país. A própria Globo já havia experimentado a alta definição em alguns segmentos de novela, mas que nunca foram transmitidos naquele padrão.

Se a gente hoje resolver assistir televisão do ar irá rapidamente se convencer de que, com poucas exceções, a TV brasileira continua no mesmo modus operandi de anos atrás, com uma programação por vezes anacrônica de dar dó.

Eu sou evidentemente suspeito para comentar, mas aquelas novelas de estrutura arcaica, verdadeiras enchedoras de linguiça, de teor essencialmente manipulativo e dopante, continuam a serem veiculadas, e só param quando a audiência despenca.

Eu creio que um erro absurdo na TV aberta sempre foi que ela nunca acreditou que o público brasileiro fosse capaz de assimilar uma programação de melhor nível, e assim se voltou para as classes mais facilmente atingíveis pela programação chula e com alto teor de baixarias ou apelações similares.

Na década de 1960, em pleno auge das TVs abertas, o lendário cronista Sergio Porto classificou a televisão brasileira de “Máquina de Fazer Doido”, mas ele próprio se serviu da mídia para as suas críticas mais sarcásticas, em plena ditadura, com os seus canhões permanentemente apontados para as socialites, aquelas promovidas por colunistas sociais tipo Ibrahim Sued e outros. Sergio Porto foi impiedoso com políticos, tendo um monte deles como tema do seu conhecido livro “Febeapá, O Festival de Besteira que Assola o País”.

Não deveria ser assim. A televisão teria sido o veículo ideal para a transmissão de eventos em tempo real, ou do jornalismo investigativo, hoje tão importante neste país, diante do status quo da corrupção disseminada entre políticos e empresas. Se ela cumprisse o seu papel social de forma abrangente, daria chance de que pessoas de baixo poder financeiro pudessem ter acesso continuado às artes em geral, concertos ou peças de teatro. E mesmo que alguém argumente que isso vem acontecendo há muitos anos, o fato é que a programação de melhor nível só é acessível em sua plenitude por aqueles que tem capacidade financeira de assinar pacotes de TV fechada.

Esses pacotes foram introduzidos com a premissa de não ter anúncio, me lembro bem, mas ela nunca foi honrada. Os canais assinados, a maioria de fora, enchem o saco com uma quantidade absurda de anunciantes, e nem por isso os preços dos pacotes são convidativos.

O início do fim?

Por causa da TV por assinatura, e por causa dos serviços de streaming e da Internet, a morte da TV aberta já foi profetizada dezenas de vezes. As pessoas enxergam no anacronismo da mídia um motivo forte pelo qual ela não terá vida longa. Mas, até quando?

Até agora, todas as profecias se pulverizaram e não foram cumpridas. E a poderosa Rede Globo estaria em estado falimentar, inclusive por conta de seus inimigos políticos. Será? Enxugar folha de pagamento é prática de qualquer empresa de grande porte, para infelicidade daqueles que são excluídos dela de forma fria e impiedosa.

As TVs abertas entraram desde cedo nos pacotes de assinatura, quando os seus provedores perceberam que muita gente assinava algum pacote só para assistir TV aberta, se livrando assim de antenas e outros acessórios. Foi uma luta convencer o público que ele tinha imagem de HDTV a custo zero, desde que se instalasse uma antena adequada!

Talvez o maior percalço nas campanhas deste convencimento foi o custo de uma TV de boa qualidade, e/ou o conhecimento da instalação da antena propriamente dita, tornando o processo de aquisição da imagem HDTV complicada operacional e financeiramente.

Em outras palavras, não adianta convencer alguém de baixo poder aquisitivo de que a imagem HDTV é superior, se ele ou ela não conseguem sequer apreciar, muito menos instalar, o equipamento necessário para atingir este objetivo.

Hoje em dia, eu não canso de perceber as pessoas atracadas nos seus celulares, ao invés de outros recursos de comunicação. Uma parcela significativa dessas pessoas se acha no direito de gravar alguma coisa de interesse coletivo e disseminar o vídeo em alguma rede social adequada. Tal fenômeno muitas vezes esvazia os telejornais diários, alguns dos quais não veem outro recurso a não ser fazer uso deste material também.

O YouTube, que é um site útil para muita coisa boa, está aí entupido de besteira, notícias falsas e/ou alarmistas. Portanto, não serve como paradigma de qualquer coisa remotamente ligada aos objetivos que a TV aberta deveria ter tido e não teve.

Entretanto, profetizar o fim da TV aberta é um tanto ou quanto temerário, até mesmo se alguém tiver em mãos ou em cima da mesa uma bola de cristal.

As emissoras de TV continuarão alegadamente a ser jornalisticamente “apartidárias”, mas o que se nota é que, na prática, quando um grupo jornalístico resolve crucificar um político ele vai até o fim. Claro que denúncias podem e devem ser feitas, perseguição jamais. Enquanto a TV aberta tiver recepção nessas denúncias, ela sobreviverá, quem viver verá! Outrolado_

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Decodificador 4k da Net Claro com Netflix

O uso do set-top box no home theater moderno

 

O formato HDR ainda sem definição de padrão

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “70 anos de TV no Brasil. Poderia ter sido melhor?

  1. Olá Paulo… Vou ter que dosar em opinar sobre vários temas de sua matéria, senão vou exagerar no comentário. Vou apenas te passar 2 informações (que no contexto) causarão uma mutação na forma que milhões de brasileiros irão assistir Tv aberta. 1º (mas não é a maior) a extinta TV Manchete retomou suas operações “mas” somente pelo sistema WebTV com o nome de Nova Manchete HD. E já está operando no que está se tornando uma nova tendência, que são os canais de WebTV (uma nova opção para quem está saturado com a combalida TV aberta). A 2ª (que na verdade seria a 1ª) a entrada em operação no Brasil até dezembro, da gigante das redes de TV dos E.U.A. Viacom/CBS Inc. através do serviço de Streaming Pluto Tv, que será a 1ª a oferecer um pacote de canais “de graça” via aplicativo para celular, tablet e PC (Netflix e outras vão sentir o baque). A forma que a Pluto Tv encontrou para bancar seus custos (nos moldes da TV aberta). será a inserção de comerciais dentro de sua grade de programação. Ou seja as redes de TV aberta no Brasil, perderão espaço no futuro como único sistema de transmissão de Broadcast. A Tv’s abertas também irão sentir queda de audiência e receita, que irão migrar para as novas WebTv’s (com custos infinitamente menores). Ou seja existe um claro caminho de conversão do Streaming com a WebTv, numa velocidade que não conseguiremos dosar, pois esse novo meio de transmissão não depende de outorgas de concessão do governo, e que começou tímido, mas vem ganhando volume de escala, muito além dos canais do Youtube. Aguarde Paulo pois as WebTv’s serão um forte concorrente para o sistema de transmissão dos canais de TV aberta.

    • Oi, Rogerio, você é um daqueles leitores que fazem contribuições e opiniões sensatas nos comentários, portano fique à vontade para escrever o que e quanto quiser.

      Não sei não, acho o futuro ainda imponderável, embora concorde com tudo o que você escreveu. Acho que o streaming não é o melhor caminho, porque ele necessita de umna conexão de Internet de qualidade razoável, sob pena de travamento constante da imagem.

      Para mim, pessoalmente, o Netflix tem sido uma enorme decepção em termos de custos. Ao longo doa anos o vaor da mensalidade aumentou demasiadamente, sem que nada de novo tenha sido oferecido. O usuário continua obrigado a pagar por 4 telas, para ter direito aos principais recursos técnicos (Dolby Vision/Atmos, 4K, etc.).

      Pelo menos neste aspecto, Amazon Prime e Apple TV+ são mais realistas com a nossa realidade financeira. A segunda oferece Dolby Atmos/Vision sem adição do custo e obrigatoriedade de assinar mais telas.

      Sobre a TV aberta, desnecessário dizer que ela se fincou em um status quo viciado e que parece que não muda nunca. Aqueles programas de auditório continuam a mesma coisa, só mudaram as câmeras. As emissoras com jornalismo atuante continuam também em uma política editorial viciada, as campanhas com denúncias diversas mostram isso com incrível clareza, para quem entende o que está se passando nas notícias. E isso aparentemente não vai mudar, só se audiência cair.

      É uma pena perceber que a adoção da HDTV não foi suficiente para mudar este cenário. Anos atrás, eu achave que podia, mas agora a esperança acabou!

      • Paulo vou pegar carona no seu comentário, e endossar de forma irrestrita sua opinião que a TV aberta está contaminada com uma política editorial viciada, além das frequentes denúncias de escândalos (dos mais diversos tipos) envolvendo seus donos. Por isso que volto a frisar sobre a expansão da WebTv (mesmo necessitando de uma boa internet). Seus criadores não estão enraisados ao governo, pois não possuem concessões, e por isso livres da famosa “troca de favores” A Tv aberta teve o seu auge até o fim da década passada com a chegada da HDTV, mas em relação ao conteúdo… Misericórdia ! Os telespectadores estão observando um empobrecimento de sua programação; e agora estarmos testemunhando uma clara decadência na sua grade de programação, em todos os sentidos. Está havendo um loteamento geral e irrestrito de grande parte delas para concessionários. Com programas sem a minima qualidade; no jargão popular… Pagou entra no ar, independente de possuirem conteúdo. Paulo a WebTv vai resgatar o telespectador pela segmentação de sua programação. Ela acabará arrebatando uma legião de telespectadores que estão carentes de conteúdos diferenciados. Novelas todos sabemos as redes que exibem, mas e quanto aos demais programas ?
        Evaporaram da TV aberta. A fusão da WebTV com o streaming são um caminho sem volta. A TV aberta está perdendo público ano após ano, principalmente os jovens que migraram para assistirem seus conteúdos pela internet, e são eles que estão mudando o rumo da TV, que ja iniciou sua fase de mutação com a internet.

        • Eu espero que sim, pelo menos vou torcer para que algo de positivo aconteça.

          A TV aberta, com HDTV poderia ter dado certo em qualidade não só técnica, mas de programação. Do jeito que ficou não poderia ter dado certo, porque, como você sabe, melhorar a qualidade da imagem só não resolve a qualidade da grade de programação.

          Eu estava em um seminário sobre HDTV, quando aquilo tudo ainda estava em estágio de planejamento, quando uma pessoa da área de marketing nos falou fora do auditório um monte de coisas sobre a Rede Globo. Eu não me lembro de tudo, mas um ponto ficou claro para mim: o da direção da construção da grade em função do interior de São Paulo, onde a audiência da rede era a maior do que a do resto do país. Isso foi anos atrás, a situação agora pode ser outra. Eu já ouvi de gente que trabalhou no grupo que a Globo está falida, mas só o que se nota, para quem está de fora, é a demissão ocasional de pessoal. Como o grupo pagava salários altíssimos a vários executivos, isso não me espanta. A Som Livre, pór exemplo, ficou reduzida a um estúdio de remasterização, todos os estúdios ali de Botafogo foram desativados e os equipamentos retirados. Ou seja, se não dá mais lucro, fecha!

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