The Jazz Singer

Quase 100 anos do início do cinema falado

O cinema falado começou oficialmente em 1927 e a partir daí tudo mudou, apesar das resistências iniciais ao novo formato. Hoje pouco sobrou desta conquista, a não ser o filme que lhe deu fama.

 

Daqui a alguns anos todos nós fãs de cinema poderemos comemorar o lançamento do primeiro filme comercial falado: O Cantor de Jazz (“The Jazz Singer”), lançado em 1927, com a colaboração do cantor popular Al Jolson:

 

Entretanto, O Cantor de Jazz não foi o primeiro filme feito com som. Thomas Edison tentou algo similar com o acoplamento do gramofone a um cinetoscópio, ainda próximo de 1895. O projeto, chamado de Kinetophone, foi realizado por William Dickson. Era para ser visto individualmente, sem intenção de sincronizar som e película.

O principal avanço foi conseguido pelo inventor Lee De Forest, com a introdução da gravação som em película (“sound-on-film”), com a qual conseguiu patentes, posteriormente compradas pela Western Electric. Esta iniciou pesquisa em ambos os projetos, do som em disco (“sound-on-disc”) e do som em película. Os avanços no primeiro culminaram no desenvolvimento do processo chamado Vitaphone, com o qual a Warner Brothers lançou O Cantor de Jazz. O nome Vitaphone continuou a ser usado, mesmo depois do processo de gravação ser abandonado.

 

Antes de lançar O Cantor de Jazz, a Warner fez um filme chamado Don Juan, no qual apenas os efeitos sonoplásticos foram incluídos na trilha em disco.

Assim, o grande apelo de O Cantor de Jazz foi a inclusão do som dos diálogos, ou seja, o cinema começou a falar pela primeira vez. Porém, O Cantor de Jazz ainda tem a estrutura de um filme mudo. O som aparece em alguns diálogos e nos segmentos com música. O Projeto Vitaphone, realizado em 1991, recuperou completamente o filme, que pode ser visto em edição home vídeo ou streaming. Nele, Al Jolson enuncia a fala que ficou famosa nos anais do cinema: “Vocês não ouviram nada ainda”!

O Cantor de Jazz é um melodrama, no qual um jovem judeu contraria o pai e se torna cantor de música considerada por ele profana, ao invés de se tornar um “Cantor”, indivíduo que usa a voz em serviços religiosos. Não há, creio eu, nenhuma correlação entre o filme e a vida de Al Jolson, ele mesmo um judeu que começou muito cedo no meio artístico, e com muito sucesso.

A vida de Al Jolson pode ser vista nos filmes biográficos “The Jolson Story” (no Brasil, “Sonhos Dourados”), de 1946, e na sequência, em “Jolson Sings Again” (no Brasil, “O Trovador Inolvidável), de 1949. Jolson foi protagonizado por Larry Parks, que foi um dos marcados pela lista negra de acusados em Hollywood de atividades antiamericanas.

Os processos de som no disco e som no filme

Embora o Vitaphone tenha sido abandonado, o conceito de som separado da película não foi. No Cinerama de 3 películas, o som foi reproduzido em uma fita magnética de 35 mm, sincronizada com os projetores.

Na era moderna, o formato DTS também adotou o mesmo princípio, gravando na película apenas um pulso digital chamado de “timecode, que é sincronizado com um reprodutor de CD-ROM, onde está a trilha. O leitor ótico é instalado na parte de cima do projetor. O formato pode ser usado para películas 35 e 70 mm:

 

A grande falha do Vitaphone, que acabou provocando o seu eventual abandono, foi o fato de que o disco fonográfico era sincronizado mecanicamente com o projetor. Se o filme se partisse e fosse emendado, a sincronização era automaticamente perdida. Este problema pode ser visto na comédia musical Cantando na Chuva, da M-G-M.

O som ótico gravado na película nunca teve este tipo de problema: ao partir o filme ou se o mesmo for emendado, o som gravado correspondente some também, impedindo a quebra de sincronismo.

 

 

Tanto Dolby Digital quanto SDDS evitaram colocar a trilha sonora fora da película, ambas são codificadas de forma proprietária e somente necessitam de um leitor ótico. Os últimos projetores com Dolby Digital receberam um leitor ótico modificado, que serve tanto para Dolby Stereo quanto para Dolby Digital.

Infelizmente, a fase romântica do cinema acabou, com o empacotamento do filme em um disco rígido, projetado em uma sala fria e sem graça. Talvez por isso, não haja motivo para se comemorar o início do cinema falado, a não ser que, por algum milagre, as películas voltem às salas de exibição. Outrolado_

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Do tempo das diligências ao som digital

 

A evolução do som no cinema foi claudicante mas inovadora

 

Irmãos Lumière, os inventores do cinema

O som digital no cinema, antes e depois

Tommy em Quintophonic tentou aumentar o escopo do som multicanal

 

O som estereofônico

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “Quase 100 anos do início do cinema falado

  1. Poxa Paulo essa matéria a 2 anos atrás certamente teria tanto impacto e importância que seria motivo de várias matérias. Mas agora diante dessa tragédia da pandemia que jogou uma pá de cal nas salas de Cinema que resistiram, que nem sei o que dizer…
    O Cinema vai virar mais uma daqueles tipos de arte que foram perdendo força, apagando até sumirem de vez. Eu vejo essas fotos dos equipamentos que você inseriu na matéria, elas retratam a grande sensação dos Cinemas que era a sala de projeção. Quando chegarmos ao mês de outubro vou tentar colocar esse assunto para o pessoal da pauta, mas duvido que no atual cenário darão o merecido espaço que esta data mereceria.

    • Oi, Rogério,

      Exatamente, nada como as antigas salas de cinema, que tinham o mérito de dar à plateia o ambiente correto para a exibição dos filmes.

      Infelizmente, não houve qualquer ato político de preservação das salas. Uma pessoa que trabalhava para o Severiano Ribeiro, ainda nosso principal exibidor, que um prefeito do Rio prometeu isentar o Cinema Palácio de IPTU, mas o prefeito seguinte não manteve a promessa, cobrou uma dívida astronômica, que o grupo Severiano pagou, mas logo a seguir fechou o cinema. Este foi reformado completamente, mas se tornou um teatro, o Riachuelo, de propriedade da loja. Bom, pelo menos preservou o que existia.

      Os próprios exibidores foram culpados de destruir o que de bom existia, removendo cortinas, diminuindo em alguns casos o tamanho das telas, etc. O ambiente antigo desapareceu para a frente. E se você acha que eu estou exagerando, vem havendo um movimento nos Estados Unidos para recompor cabines, cortinas, etc. Em alguns casos, a exibição de filmes atuais em 70 mm, como por exemplo, Interstellar, Dunkirk, Hateful Eight, etc.

  2. Está será uma boa reflexão aliada a seguinte indagação que faria sobre esse movimento nos E.U.A. Será que da mesmas forma que a moda retrô do disco de disco de vinil, que por lá teve um “renascimento” poderia ocorrer isso com as salas de Cinema ? E quanto ao nosso país tupiniquim, embarcaria nessa onda “Revival”

    • Olha, Rogério, eu não acredito neste tipo de revival, inclusive no caso dos cinemas a manutenção é muito cara, então a exibição de película se restringe a uma meia dúzia de idealistas, creio eu. Uma ou outra sala comercial pode se dar ao luxo de fazer isso, e nesses casos há pelo menos um projetor 70/35 com alimentação por prato.

      Lá em Conservatória, o Ivo Raposo não abre mão de película. Isso porque ele é um apaixonado confesso por cabines de projeção. Nós cansamos de conversar sobre isso. A cabine, o cheiro dos projetores, etc. só quem sabe é quem esteve lá, e você pelo YouTube vê grupos de pessoas em torno de projetores, reunidos para exibir um filme, portanto é a mesma paixão que está lá!

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