Tamba Trio, depois Tamba 4, ícone da Bossa Nova

Tamba Trio e Tamba Quarteto

O Tamba Trio, depois Tamba 4, continua a ser para mim um importante ícone do movimento da Bossa Nova, transcendido por eles com composições e arranjos inovadores e ousados, tanto no lado instrumental como no vocal.

 

No início da minha adolescência, provavelmente aos 12 ou 13 anos de idade, eu fui a uma festinha na casa de um garoto da rua, filho de pais e avós abastados, com cuja irmã eu frequentei o jardim de infância do Instituto de Educação. A minha intimidade com ambos não era grande, mas nas nossas ruas todo mundo se dava com todo mundo.

No canto da sala, uma vitrola Telefunken, instalada erradamente em uma das quinas, tocava o som da festa. E, de repente, um disco recém lançado começou a reproduzir um som que eu nunca tinha ouvido antes: era o Lp “Avanço”, do Tamba Trio, gravado na Philips, e lançado em 1963.

O apelo e o fascínio daquele disco foram imediatos, as harmonias e os vocais avançados invadiram os meus ouvidos e estimularam a minha imaginação. Era um som que eu nunca tinha ouvido antes. Sobre a bossa nova propriamente dita eu conhecia muito pouco até então.

Depois daquela festa eu pedi à minha mãe para comprar o disco, e a partir daí foram audições ininterruptas, tentando assimilar o que a gravação representava. Mas, música é isso mesmo, ninguém precisa conhecer a teoria musical para apreciá-la, basta ouvir e saber se gosta.

Em curto espaço de tempo eu começaria a abraçar a bossa nova, e este processo de conquista não parou até hoje. Eu tinha um vizinho mais velho, amigo do meu irmão, que adorava o saxofonista J. T. Meirelles e com ele eu ouvi os seus principais discos. Àquela altura da minha vida, eu já ouvia Jazz e, portanto, o que a bossa nova e músicos como Meirelles me mostravam era o caminho das pedras, por assim dizer. Tudo se completava, desculpem o trocadilho, harmonicamente.

O aparecimento do Tamba Trio

Foi na Philips, parte da antiga Companhia Brasileira de Discos, que o Tamba começou a gravar. Na faculdade, eu conheci a Silvia Rabello, filha do Sylvio, que também conheci nesta época, que foi quem montou o primeiro estúdio da Philips. O Lp Avanço surgiu por lá.

Em passado recente, eu fui com um amigo assistir um show do Durval Ferreira, que era seu vizinho na São Salvador. Lá eu dei de cara com o músico Bebeto Castilho, e me confessei seu fã. No intervalo do show ele se sentou à nossa mesa e os assuntos transcenderam a música. Bebeto era conhecedor de eletrônica e gostava de áudio. Na ocasião, eu comentei com ele que era uma verdadeira vergonha que nenhum disco do Tamba da época da Philips (a esta altura já em mãos da UMG) havia sido remasterizado para CD.

Anos antes, eu havia feito amizade com o músico norte-americano Jim Rowan, que conheci no antigo fórum da Verve, e com ele trocamos gravações e informações sobre o Jazz e a Bossa Nova. Foi o Jim que me cedeu cópia do CD japonês do Avanço, cujo Lp eu já havia digitalizado e restaurado em casa. O meu antigo Lp estava muito desgastado. A cópia japonesa tinha um som melhor, e eu então a conservei.

Anos após este encontro com o Bebeto eu mesmo acho no Japão um monte de edições do Tamba, todas em CD e cheguei a publicar no Webinsider algumas considerações sobre o fato inusitado de a gente só ser capaz de recuperar as nossas gravações de bossa nova em solo estrangeiro!

O Tamba Trio que eu ouvi quando menino era composto pelo genial e eclético Luis Eça ao piano, acompanhado por Helcio Milito na bateria e o Bebeto se desdobrando no contrabaixo, sax alto e flauta, além dos solos vocais, como na música Moça Flor, que fez muito sucesso aqui e lá fora.

Isso era possível, porque no estúdio da Philips se usava um recurso técnico chamado de “overdubbing”, que consistia em usar uma pista da fita magnética separada para gravar o som de um vocal ou instrumento, ao lado do resto da música previamente gravada.

O Tamba 4

O trio passou a quarteto nas gravações americanas realizadas nos estúdios de Rudy Van Gelder para a A&M Records:

Para o Tamba 4 foi acrescentado o músico Dório Ferreira no contrabaixo. Com isso, Bebeto passou a ter mais liberdade de criação com os instrumentos de sopro. Ainda como trio, o baterista Rubens Ohana, que substituíra Helcio Milito, continuou como tal no Tamba 4.

O trio, com a adesão de Ohana, pode ser ouvido no disco Tamba Trio, gravado na mesma época em que o Tamba 4 se deslocou para os Estados Unidos. Qualquer um potencial audiófilo irá notar as diferenças de abordagem nos métodos de gravação entre este disco e We And The Sea, este último bem mais sutil na distribuição dos instrumentos e com sonoridade menos agressiva.

A contribuição de Luis Eça

Foram muitas as vezes que eu li comentários contemporâneos falando sobre a formação musical do pianista, compositor e arranjador Luis Eça. Embora o Tamba como um todo tenha tido uma enorme colaboração de todos os seus componentes originais, Bebeto inclusive, foi Luis Eça que deu a “alma” do conjunto. Alguns dos arranjos do Tamba pegam emprestado o som sinfônico e de forma lírica. Tanto assim, que posteriormente Luis Eça gravou com arranjos para cordas, no disco Luis Eça e Cordas, gravado em 1965 para a Philips.

O reconhecimento de Luis Eça na sua contribuição musical pode ser visto na foto capturada, em uma brincadeira feita pelo antológico pianista Bill Evans, que “ameaça” cortar as suas mãos.

Diz a lenda que quando o Tamba começou a tocar ao vivo na América, Sammy Davis Jr. subiu em uma mesa e começou a dançar.

Com a morte de Luis Eça o Tamba já não teve a mesma graça. Para o colecionador sério, a gravação Tempo, de 1964, ainda na Philips, é absolutamente antológica, inclusive porque mostra composições importantes de Luis Eça.

O pianista e compositor Laércio de Freitas substituiu Eça por um período de tempo, após o que o Tamba desapareceu.

Ficou na minha memória todo o período de gravação na Philips, como um autêntico legado do movimento bossa novista de 1960 a 1965. A UMG, diretora dos direitos dos fonogramas, não se propôs a recuperar essas matrizes, até onde eu saiba. Mas, esta é, infelizmente, a realidade de um país sem memória e a gente continua plantando bananeira para recuperar o que pode!  Outrolado_

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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