A falácia do Dolby Atmos em equipamentos adaptados

Ao sair de uma TV OLED LG 65E7P para o modelo mais avançado OLED 65C1, de 2021, eu percebi uma queda absurda de amplitude de volume, toda vez que um vídeo com Dolby Atmos é reproduzido direto na TV. A LG, entretanto, se recusa a aceitar este tipo de constatação, aqui e lá fora, e prefere atribuir a culpa aos serviços de streaming.

 

Eu comecei a estudar a reprodução do som multicanal com Dolby Atmos circa 2017, quando o assunto era novidade, e eu ainda publicava pelo Webinsider. Tal como no lançamento do Dolby Digital na década de 1990, muito do que se propunha para a reprodução do codec era cercado de mistério e desinformação, obrigando a nós entusiastas a começar uma intensa pesquisa, de modo a extrair o melhor som possível dentro de casa.

Naquele momento de 2017, ainda cheio de dúvidas sobre como reproduzir o Dolby Atmos corretamente, eu cheguei a montar e testar caixas do tipo Dolby Enabled, para depois fazer testes conclusivos com montagem de caixas “Height”, isto é, caixas montadas no topo das paredes e anguladas para baixo, duas na frente e duas atrás, fazendo uma configuração 7.1.4 neste tipo de layout (disposição) de caixas acústicas. Com o tempo, eu percebi que estava certo, quando fui ao cinema visitar a primeira sala de exibição com o som Atmos que ficou ao meu alcance, e assim tive certeza de que estava no caminho certo.

Esta comparação entre a sala convencional de cinema e a instalação doméstica aconteceu em 2019, aproximadamente dois anos depois que esta pesquisa começou a ser feita. Eu ainda tive chance de atender uma palestra sobre a nova técnica de mixagem em Conservatória por um figurão da Dolby, mas não pude chegar lá a tempo. No final, não fez muita diferença, porque a palestra era dirigida para o pessoal da área.

Quando o Dolby Atmos é por demais virtual

Anos atrás, eu adquiri uma TV OLED LG 65E7P, com reprodução Dolby Atmos incluída. Foi inevitável traçar paralelos, e no final achei o resultado do som da TV inconvincente!

E recentemente troquei a E7P pelo modelo 65C1, mais moderna, e imediatamente observei algo pior ainda: o som de um programa Dolby Atmos estava sendo reproduzido com baixíssimo volume, me obrigando a escancarar o som para conseguir alguma coisa decente. Um erro absurdo, que nunca existiu na antiga 65E7P.

Acionei a LG, ela mandou dois técnicos da sua autorizada na minha casa, e depois de mostrar a eles o que estava havendo, os dois saíram daqui convencidos que a TV estava com erro de programação no firmware, cuja versão mais recente já havia sido atualizada por mim, no momento da instalação, e afirmaram escalar o caso para o setor competente.

Porém, menos de uma semana depois, o protocolo de atendimento foi encerrado, com a alegação de que a TV não tinha defeito algum. Notem que eu só foi saber da razão do encerramento daquele atendimento porque eu liguei para a LG, pois o e-mail que eles me mandaram não dizia nada a respeito. Tentando saber o que havia ocorrido ao nível da autorizada, esta não me respondeu mais.

Entrei com uma queixa no Reclame Aqui, a LG me pediu um contato privado, e depois de algumas trocas de mensagens, pessoas da empresa continuaram a dizer a mesma coisa: a TV estava funcionando corretamente. Alegaram inclusive erro no aplicativo da Netflix, como se eles não tivessem nada a ver com isso. Se alguém liga para a Netflix, eles irão dizer o contrário!

Se a TV então não tem erro de software, e/ou o problema está restrito aos serviços de streaming, ela não deveria reproduzir o som Dolby Atmos de outras fontes de sinal muito abaixo do nível de volume atual. Foi, inclusive, por isso, que a minha demonstração aos dois técnicos foi feita com a ajuda de um drive USB.

O vídeo a seguir foi gravado por mim e tenta provar que a LG está errada, ao declarar que é assim mesmo. Para contornar qualquer chance de erro de aplicativos de streaming, o vídeo foi gravado com a reprodução de clipes de referência que eu guardo para qualquer tipo de teste. A gravação, de 1080p @ 60 Hz, foi feita improvisadamente com uma câmera Nikon modelo D5500.

 

 

Nos modelos OLED mais recentes o Dolby Atmos é habilitado ou desabilitado nas configurações avançadas de áudio. Mal sabia eu, naquele momento, que a maioria dos modelos LG da linha 2021, com a mesma configuração de habilitação do Dolby Atmos, tinham o mesmíssimo problema.

Eu tomei conhecimento disso porque nos fóruns que eu li a este respeito, vendo a turma reclamar do volume de som mais baixo, que o assunto veio à baila, e então o conselho “recomendado” de quem não queria se aborrecer com este problema era de “entrar no menu avançado de áudio e desabilitar o som Dolby Atmos”.

Esta solução é totalmente pragmática, não corrigindo o problema, e eu já tinha feito isso logo que constatei a inoperabilidade da solução mais óbvia, que seria reescrever o firmware da TV. Só que não fizeram isso nem lá fora, como se percebe nos fóruns, muito menos aqui, portanto a queixa já havia ultrapassado fronteiras, evidenciando que o pessoal técnico da LG lá de fora não conseguiu assimilar e retificar o erro de reprodução e o daqui então, se é que existe alguém trabalhando neste setor, não passou nem perto. Pelo contrário, eles preferiram colocar a culpa nos serviços de streaming. E deixar o abacaxi ser descascado pelo usuário final.

As raízes deste tipo de problema

A incapacidade de reproduzir Dolby Atmos corretamente por um dado equipamento advém de uma série de fatores. O problema central deriva, como sempre, do espalhamento do som no ambiente, que se mostrou o calcanhar de Aquiles de todos esses sistemas. O som é emulado, mas a dispersão é ineficiente! O som 3D, seja ele Atmos ou DTS:X, precisa de dispersão na camada superior da sala, sem a qual o efeito desejado de localização no espaço dos chamados “objetos” não se concretiza.

Situação idêntica de incapacidade de reproduzir o conteúdo surround 3D de forma convincente ocorre também nas barras de som. E o interessante é que as quase todos os televisores Smart mais recentes são desenhados admitindo que o usuário substitua o som interno pelas barras ou caixas com transmissão sem fio.

Porém, esta substituição implica em gastos, inclusive os de valor elevado, caso o modelo de barra escolhido seja capaz de reproduzir codecs avançados. E como o usuário já tem um problema na origem, o risco da substituição do som da TV pelo da barra é muito alto.

E sendo assim, é muito mais prudente e mais seguro eliminar a TV do circuito de áudio completamente, com a ajuda de equipamentos externos com autonomia de reprodução de qualquer serviço de streaming e de fontes de sinal alternativas, como, por exemplo, um Blu-Ray player.

Por causa dessas limitações de reprodução na TV, anos atrás eu instalei um reprodutor de mídia Apple TV 4K, o primeiro, inclusive, a oferecer Dolby Atmos e Dolby Vision. Só que, ao invés de ligar direto na TV, a conexão por HDMI foi direcionada ao meu receiver, capaz de decodificar qualquer coisa. Por causa disso, eu nem precisaria recorrer a qualquer tipo de barra de som, uma vez constatado o erro interno da TV.

Salve-se quem puder…

As TVs antigas deram chance a quem comprava de ter um som de razoável qualidade, principalmente nos modelos montados dentro de gabinetes mais amplos, como, por exemplo, nos modelos de retroprojeção. Porém, com o advento das telas de plasma e LCD a inserção de alto-falantes de bom nível foi paulatinamente desaparecendo, e se agravou com a evolução natural dos codecs.

Salvo melhor juízo, é fácil perceber que o prejuízo de um design de software incompetente vai cair sempre no colo do usuário final. E é, de certa forma, inacreditável, que uma empresa do porte da LG, não seja capaz de resolver isso. A culpa, atribuída aqui aos serviços de streaming, não procede.

No momento inicial da constatação desse erro, eu entrei em contato com a Netflix, achando que o problema poderia ser de lá, mas depois eu notei que todos os serviços de streaming que oferecem o som com Dolby Atmos exibiam o mesmo erro de reprodução. E a seguir concluí com convicção de que o erro estava no firmware da TV, ao reproduzir conteúdo Dolby Atmos com arquivos de vídeo da minha confiança, via drive USB. Os técnicos que estiveram aqui viram exatamente isso, e, como diz o ditado popular que se aplica nesses casos “contra fatos não há argumentos”.

É lamentável que, em nenhum momento o departamento técnico da LG fez contato comigo, e o atendimento do suporte me afirmou que este tipo de contato não é possível. O que significa, na prática, a empresa se negar a escalonar o problema para o setor técnico competente!

Na época da introdução do som 5.1 da DTV eu tive uma TV Samsung que dava erro de reprodução. Em contato com eles, o problema foi levado ao setor de engenharia e o firmware corrigido. Este firmware foi mandado para mim e atualizado manualmente na TV. Portanto, a recusa da LG em ouvir o consumidor não é acompanhada por outros fabricantes.

A ausência ou desinteresse de feedback do usuário final, em particular de alguém que tem noção e pode provar que está ocorrendo um erro deste tipo, é, no meu entendimento, pouco saudável, e revela sinais de fumaça evidenciando que o corpo técnico que iria se envolver com a solução do problema não tem capacidade para fazê-lo!

Antes de negar assistência, o suporte de uma grande empresa deveria escalar o assunto para os seus setores de engenharia, mas não o fazendo, é a mesma coisa que mandar o usuário se virar sozinho! Não sei quanto a você, leitor, mas eu estou cansado de guerra. Em outras épocas, um caso desses iria direto para o Procon. Eu já passei por isso antes e ganhei a causa, mas é um processo tedioso e desconfortável. Eu aposto que muitos fabricantes apostam nessa inércia e, se for este o caso, continuarão a desprezar o feedback de quem usa!

A LG 65C1 indubitavelmente tem uma das melhores imagens de tela OLED que eu já vi. O processador central incluso na TV faz um aprimoramento que exibe exemplarmente o detalhamento das zonas de sombra e a reprodução de um espectro amplo da gama de cores escolhida nos ajustes de cada entrada ou sinal, e isso, por si só compensa o alto custo da TV. É uma pena, portanto, que uma TV desse nível de qualidade de imagem não seja acompanhada de uma qualidade de som equivalente! Outrolado_

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A minha primeira experiência em uma sala de cinema com Dolby Atmos

 

Análise do Apple TV+, interface e programação

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

8 comentários sobre “A falácia do Dolby Atmos em equipamentos adaptados

  1. Oi Paulo. Mais um texto interessante. Estou pensando em adquirir uma tv smart e creio que não será uma LG. Aproveitando, acabei de ler uma página no TAB Uol de autoria de Fabiana Batista abordando o Ivo Raposo Jr. e seu sonho de infância. Muito bacana! Levou-me a minha adolescência quando iniciei na tela grande que acontecia nas matines de domingo às 13h30 lá no final da década de 1950. Quanta saudade!

  2. Eu percebi esse problema no volume usando o Dolby Atmos no iPhone com os fones da Beats (Powerbeats Pro)! A musica fica com o volume baixo obrigando a aumentar o som pra poder ficar no mesmo nível das outras! Isso mesmo ativando o recurso de manter o nível de som entre as faixas!

    • Oi, Esmar, em conversa com o suporte técnico da Netflix eu fui informado de que este problema existe e eles estão vendo a solução. Mas, no caso específico que eu estou enfrentando todos os aplicativos sem exceção dão o mesmo problema, como relatado no texto, e assim é imperativo que o sistema operacional da TV seja cuidadosamente examinado.

      Um outro erro desta TV, que eu acabei nem mencionando para a LG é o de, volta e meia, eu estar assistindo uma transmissão de streaming e a imagem fica momentaneamente congelada e o sinal volta para a entrada HDMI anteriormente selecionada. Isso também é erro de firmware. Mas se a LG se recusa a admitir que a versão atual tem problemas, quem sou eu para dizer o contrário?

      Via-de-regra o sistema WebOS é atualizado sem que a gente saiba a razão. Mas, eu sempre parto do princípio de que quando qualquer sistema operacional é atualizado existe uma razão sólida para a mudança. Quando as pessoas que eu conheço me perguntam se devem ou não atualizar software eu sempre recomendo que o façam.

      Outro dia mesmo, uma amiga estava preocupada com a notificação no celular novo de que estava disponível uma nova versão do Android, e ela, temerosa com algum problema, me perguntou se devia atualizar. Aí eu tive que esclarecer que vários modelos de telefone são vendidos com a promessa de serem atualizados para uma nova versão do Android, o que é inclusive um motivo para a compra daquele modelo. Se ela não atualizasse estaria perdendo uma vantagem da própria compra. Parece óbvio, mas não é, porque sem sempre o usuário sabe com quê está lidando!

  3. Na minha humilde opinião, o erro está simplesmente em a LG deixar a opção de habilitar ou desabilitar o áudio Dolby Atmos. Esta opção deveria sempre estar ativada para a saída de áudio via ARC da porta HDMI e não para os auto falantes da TV. Isso evitaria que as pessoas pensassem que a TV pode reproduzir o áudio Dolby Atmos.
    Penso que um dispositivo como uma TV, com apenas um par de auto falantes jamais poderá executar o efeito real do codec Atmos. Talvez uma simulação, com fazem algumas soundbars.
    Para desfrutar do sistema Dolby Atmos e mesmo de um simples 5.1 é necessário um aparelho adequado (receiver) que consiga ler, decodificar e distribuir o som em seus diversos canais (auto falantes). Além disso, como a própria Dolby recomenda, o posicionamento dos auto falantes deve respeitar um layout próprio, para que a experiência seja adequada.
    Ao habilitar a função Dolby Atmos na TV, ao meu ver, o som deve realmente cair se você só usa a TV como emissora de som. Obviamente os canais reproduzidos em Atmos estão distribuídos em vários canais que a TV não possui.
    Para o funcionamento correto e aproveitamento do sistema Atmos, o conjunto completo deve estar na equação. Ou seja, mídia (filme ou série), aparelho reprodutor (TV ou Streamer), cabos som suporte a banda (HDMI 2.0 ou 2.1) e sistema de som adequado (receiver e caixas).
    Um layout básico para um sistema Dolby Atmos seria o 5.1.2. Sendo 3 caixas na frente (cebtral, frontal direita e frontal esquerda), duas ao fundo (surround), subwoofer e duas caixas posicionadas entre a TV e o sofá. Estas últimas dando a sensação de imersão vertical trazida pelo sistema Dolby Atmos.

    • Oi, Wendell,

      Tudo isso que você descreve eu já estudei há muito tempo, e gostaria de te lembrar que eu tive um LG OLED 65E7P que não precisava habilitar nada e tocava Dolby Atmos com o mesmo volume. Você tem razão quando afirma que as TVs não são capazes de emular Atmos corretamente, mas isso não justifica o volume baixo.

  4. Olá Paulo,
    tudo bem?

    Tenho o mesmo modelo, porém uma 55c1, com problemas semelhantes ou piores. E preciso de sua expertise.
    Acontece que a minha TV esta ligado ao soundbar da Samsung 800a, com suporte ao Atmos. Po´rem quando ligada a ele, jamais ele funciona o Atmos. Nunca aparece o símbolo da TV. Somente o do Dolb Vision.
    Se desligo o soundbar e uso somente a Tv funciona tanto o Doulb como o Atmos. O sound está ligado através da saída eArc.
    Além disso tudo, em cenas escuras, o Doulb Vision fica alterando o brilho diversas vezes, como se ele atingisse vários tipos de brilho, tentando ajustar conforme a cena ocorre. Fica horrível.
    Tem alguma solução pra isso?

    • Oi, Victor,

      Infelizmente, as soluções são pífias nesta linha de aparelho. O que eu te sugiro neste caso, e espero que resolva a oscilação de brilho, é desligar as opções de inteligência artificial da TV: entre nas configurações, depois em ajustes Gerais, Serviço de AI e desabilite o Ajuste de Brilho AI.

      Na minha TV eu deixei os nomes dos ajustes em inglês (força do hábito…) e a configuração seria assim: Settings – General – AI Service e AI Brightness Setting.

      Este ajuste mede a luz ambiente através de um sensor, e ajusta o brilho automaticamente. Não é nada novo ou revolcionário. Eu já tive uma TV Philips, modelo Automatic, na década de 1960, que fazia a mesma coisa e era possível desligar o sensor.

      Espero que dê certo. Você pode também verificar se vale a pena desabilitar algum outro serviço deste tipo. Eu recomendaria deixar os de análise da imagem habilitado. Esta é, aliás, a única que para mim valeu a pena nesta TV.

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