O inicío dos processadores de texto

Vida e glória dos processadores de texto

Os processadores de texto impulsionaram a venda de microcomputadores, durante as décadas de 80 e 90, adquiridos até por aqueles que nunca se interessaram por informática. A mudança para o ambiente gráfico foi acompanhada de uma transformação dramática na editoração eletrônica, podendo ser usada ainda em qualquer aplicação.

 

Pode hoje parecer obsoleto, mas se existe um tipo de programa que revolucionou a informática nos anos 80 e 90 e que motivou a compra de microcomputadores, este é o processador de texto!

O processamento de texto é ambição antiga na indústria mecânica de outrora, com o relato histórico de que este tipo de máquina existe desde a década de 1930. E eu mesmo ainda me lembro do lançamento de máquinas de escrever convencionais dotadas de uma tela LCD, com algumas linhas de texto para serem editadas.

Da mecânica à informática estabelecida na explosão da microcomputação, os processadores de texto foram possíveis por conta de conceitos originalmente propostos pelo matemático inglês Alan Turing, quando ele publicou trabalhos sobre uma máquina capaz de realizar tarefas que a tornariam uma “máquina universal”.

E foi o que se viu depois, quando o computador pessoal moderno nos mostrou, pela primeira, vez, que ele era capaz de fazer designs, processar textos, fazer cálculos sofisticados, trabalhar com áudio ou filme, etc. Tal “universalidade de processamento” só é limitada pela imaginação do programador.

No caso específico de letras e textos, associam-se códigos com caracteres. Um computador trabalha com números e cálculos. A associação de caracteres com códigos foi proposta e usada na tabela ASCII:

 

 

Na prática, significa o seguinte: o computador não sabe o que é a letra “A”, mas se associarmos a ela o código decimal 65, é possível usar esta associação para escrever programas e processar dados.

A evolução dos processadores de texto

Eu creio ter passado por parte desta evolução: o meu primeiro processador de textos, em um computador MSX, foi o MSX-Word, cópia adaptada do Tasword, feito originalmente para o ZX-Spectrum. A tela do programa era gráfica, porém no ambiente ele trabalhava com códigos ASCII enviados para a impressora. Assim, era preciso adaptar o programa ou a impressora para converter os códigos dos caracteres na tela com os códigos incluídos no firmware da impressora.

Desde o CPM, processadores de texto da época trabalhavam tanto em 8 bits quanto em 16 bits, o que facilitou imensamente a migração do usuário entre plataformas operacionais.

Um dos principais processadores que passaram por esta transição e que foi largamente usado no Brasil foi o WordStar. A adaptação do programa para rodar em um micro MSX foi publicada por mim na revista MSX Micro nº 20, com o título (editado por eles) “Use e abuse do Wordstar”.

Na realidade eu usei muito pouco o WordStar, porque ao chegar em Cardiff o micro de 8 bits já havia desaparecido, e eu fui forçado a pular direto para a plataforma IBM, baseada no processador Intel 8086, que tinha opções melhores. A transição foi tranquila. Meus disquetes com arquivos gravados pelo MSX foram corretamente lidos no IBM-PC.

Em plataforma IBM, o processador preferido no ambiente acadêmico era o Word (para DOS) versão 5.0, e foi com ele que eu comecei a transição. Este programa migrou para o ambiente criado no Windows 3.0, rodando com o nome de “Word for Windows”. Eu terminei o meu trabalho de tese com a versão 2.0 deste aplicativo.

Bem antes de viajar, o nosso editor da Ciência Moderna Paulo André já havia nos mostrado programas de editoração eletrônica, tipo Page Maker e Ventura, para montar completamente um livro com impressionante eficiência.

O Word para DOS não tinha ainda esta capacidade, mas junto com a decisão de tornar o Windows um ambiente totalmente gráfico, concretizada na versão 3.0, o Word para Windows passou a incorporar uma interface de editoração gráfica completa. Com isso, todos os conceitos aprendidos pelo Page Maker ou Ventura puderam ser totalmente aplicáveis no Word.

Um dos meus orientadores viu uma parte do manuscrito impresso e comentou que “parecia um livro”, e era mesmo. Difícil foi convencê-lo sobre a mudança de paradigmas de como fazer um manuscrito de tese. Mas, meus colegas de laboratório rapidamente sacaram a mudança e correram para se adaptar ao Word novo.

Para quem, como eu, passou pela tortura de datilografar a tese de mestrado em uma daquelas máquinas elétricas IBM de bola, o Word era um paraíso! Com a ajuda do ambiente gráfico usou-se o antigo conceito da microinformática “What You See Is What You Get” ou WYSIWYG, ou seja, “o que você vê é o que você obtém”. Neste sentido, a impressão do texto sairá exatamente como você vê na tela do computador.

Antes dos processadores de texto, bastava errar ou precisar inserir uma só referência bibliográfica e se era obrigado a datilografar tudo de novo! Com o Word (DOS inclusive) e similares era questão de selecionar os títulos das referências e comandar a ordenação alfabética.

No Word para DOS fazer uma tabela era um suplício, mas na nova versão a tabela poderia ser simplesmente inserida no texto, e este formatado do jeito que o usuário queria. O recurso é mantido até hoje.

O ambiente Windows trouxe inovações importantes, como o conceito chamado de OLE (Object Linking and Embedding): informações poderiam ser retiradas de um aplicativo e inseridas em outro. Caso fosse estabelecido um link, toda a vez que a fonte desta informação mudava o arquivo destino mudava também.

Além disso, na versão 3.1 a Microsoft introduziu a fonte TrueType, uma cópia descarada da fonte Adobe PostScript. Para se trabalhar com esta última era necessário ter uma impressora gráfica com um cartucho PostScript, mas com a fonte TrueType a interface gráfica dispensava este tipo de adaptação.

Estes tipos de fonte contém o que se chama de “métrica”, que consiste em uma série de medidas, armazenadas, neste caso, em um arquivo com a extensão “.ttf” (abreviação de true type font):

 

Com estes dados o processador de textos faz os cálculos necessários para alterar cada fonte para os valores indicados pelo usuário. Foi por causa disso que eu comprei e instalei um coprocessador aritmético pela primeira vez, instalado em um micro com um chip Intel 80386SX. Este coprocessador tornou o Word for Windows visivelmente mais rápido!

Isto hoje passa transparente para o usuário de Windows porque os coprocessadores aritméticos foram fisicamente incorporados nas CPUs, sem falar que a velocidade de um microcomputador pós era Pentium não se compara aos daquela época.

Junto com o avanço do Word, algumas regras da tipografia convencional precisavam ser aprendidas, caso o usuário quisesse usufruir ao máximo a composição de seu manuscrito:

 

Por exemplo: fontes serifadas são mais fáceis para leitura e, portanto, de melhor aplicação para o formato do corpo do texto, enquanto que as demais são melhor usadas para títulos ou cabeçalhos.

A editoração gráfica no Word for Windows permite editar cabeçalhos e rodapés com mais facilidade e, no caso de manuscritos longos, a introdução da numeração de página tanto em um campo como no outro.

Consequências das mudanças

Eu dei muita sorte de ter ido para fora do país no momento em que o ambiente gráfico se tornou padrão operacional de todos os aplicativos. No entanto, vários dos melhores programas, incluindo aí planilhas e banco de dados, ainda conseguiram conviver com os programas escritos para Windows, mas logo cedo perderam a sua popularidade, e acabaram por desaparecer do mercado.

Os computadores da época rodavam tanto em ambiente DOS quanto Windows, e ficaram assim por um longo período de tempo. Se hoje eu quiser rodar decentemente algo em DOS, eu preciso lançar mão de uma ferramenta tipo DOSBox, excelente por sinal.

A transição, no entanto, foi benéfica para quem precisava fazer uso de ambos os ambientes. Eu, por exemplo, havia escrito um programa em linguagem dBase, só para gerenciar as minhas referências bibliográficas. Explicando melhor: em um trabalho científico extenso é muito comum o aluno coletar a mesma referência duas ou mais vezes.

O meu programa comparava uma nova referência com as antigas, de modo a verificar se ela era duplicata de outra. Se fosse, ela seria rejeitada. Além disso, era perfeitamente possível selecionar referências e exporta-las para um arquivo de texto, que seria depois lido pelo Word. Isto facilitou a digitação de referências no corpo do trabalho, bastando somente aplicar a formatação exigida em cada uma delas.

Outra providência necessária à mudança de ambiente era a instalação de uma impressora gráfica. Em um primeiro momento, a única disponível era do tipo “impressora a laser”, muito cara para qualquer estudante. Isto obrigou os fabricantes de impressoras matriciais a fazer mudança no hardware e se fosse o caso introduzir um driver específico para esta função. Com a introdução das impressoras jato de tinta a interface gráfica se tornou padrão, e consequentemente com a diminuição do custo de aquisição.

Naquela época os aplicativos não eram acompanhados de chaves de instalação, portanto a disseminação de uso era indiscriminada. A Microsoft introduziu depois uma suíte, chamada até hoje de “Office”, com a chave incluída.

A Internet mudou muita coisa desta rotina de escrever e imprimir, mas as regras de processamento e edição de textos não.

Eu continuo usando Word, e depois copiando o conteúdo direto para o editor do site. Algumas das minhas formatações passam sem alterações e outras não, e estas últimas acabam, se necessário, sendo mudadas em tempo real.

Gozado é que até hoje, volta e meia eu vejo pessoas que eu conheço com pouco uso de algum processador, ou com ausência do seu uso de recursos. Mas, aí eu me lembro o esforço que fiz para atingir um nível de editoração capaz de atender às minhas necessidades, iniciativas que intimidariam qualquer um.

Na época em que eu entreguei o meu manuscrito de tese a UWCC (hoje Cardiff University) já havia aprovado o formato produzido pelo Word for Windows e similares, e assim eu acabei não tendo problemas com os meus orientadores, que desconheciam o processo. Naquela altura, o centro de computação da universidade já tinha deixado disponível toda a suíte da Microsoft e dezenas de outros programas para uso científico, que qualquer um poderia usar on-line e salvar o trabalho localmente. Só não aproveitou quem não quis!  Outrolado_

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “Vida e glória dos processadores de texto

  1. Delicioso artigo. Eu fui um dos que usou o WordStar e feliz da vida. A máquina de escrever Olivetti foi para o armário, apesar de gostar demais dela também. Antes mesmo do WordStar em sistema operacional CP/M com disquetes de 8 polegadas, usei soluções híbridas com máquina de escrever elétrica e monitor de fósforo verde. Salvaram minha pele muitas vezes!

    • Vicente, muito obrigado!

      Creio não ser possível nem correto deixar a memória do que nos foi útil esquecida ou relegada a segundo plano. Eu estou no grupo daqueles a favor da preservação da memória, e já que na nossa cultura o formato de museu ainda não é devidamente valorizado, a não ser que um deles pegue fogo, eu faço a minha parte em assuntos que tiveram peso histórico, e se alguém me perguntar eu digo que não faço mais do que a minha obrigação!

  2. Eu particularmente adoro essas matérias que contam um pouco da história da computação! Apesar de não ter vivido essa época, acho um máximo! Por curiosidade, procurei sua matéria na revista MSX nº20 que achei na internet, realmente o mundo mudou muito de lá para cá (nossa, os questionamentos da seção de cartas, de tão deslocadas nos parecem hoje, que chegam a ser cômicas, imagine hoje escrever para uma revista para descobrir se existe um determinado programa!)

    • Pois é, Douglas, quando eu comecei a estudar informática com um computador MSX dentro de casa (antes eu dependia do NCE-UFRJ), uma das coisas que eu notei foi a escassez de material de leitura, e a partir daí eu consegui convencer o meu irmão a escrever um livro que fosse sobre o MSX. Ele era um profissional da área, mas trabalhava com sistemas que de micro não tinham nada. Por este motivo, a microinformática se tornou uma novidade para este segmento de profissionais. Eu conheci colegas do meu irmão que programavam em binário, acredite se quiser.

      O nosso primeiro livro foi “dBase II Plus MSX sem mistérios”, título bolado pelo meu irmão quando eu afirmei a ele que muita gente fazia da informática um mistério, de maneira a proteger conhecimento, coisa da qual eu sempre fui contra! A expressão “sem mistérios” virou propaganda da Ciência Moderna, cuja editora era recente. Eles também se beneficiaram da escassez de livros naquele momento.

      O livro do dBase vendeu duas edições, e depois a Ciência Moderna ainda lançou mais dois livros nossos, um deles sobre o MSX-DOS, que eu vi pirateado inteiro na Internet, e não pude fazer nada. Como você também achou as antigas edições da MSX-Micro, da qual fui colaborador eventual. Também colaborei com a revista CPU, antes de sair do país. O rapaz que era dono da revista ficou chateado com a minha viagem, mas entendeu que eu não podia perder a minha bolsa. Hoje em dia, o governo está cada vez mais massacrando os pós-graduandos e naquela época já era muito difícil conseguir ser bolsista.

      Eu tenho já de muito tempo liberdade com o Vicente de escrever artigos que fazem parte da minha memória, já que pouca gente por aí faz isso nesta área. Nós não temos museus por assunto, o que é uma lástima. Veja que anos atrás eu tentei convencer uma moça do Museu da Imagem do Som em montar uma ala de projetores na sede em construção. Fui ignorado! Dias atrás, eles fizeram um pedido de colaboração para ajudar a concluir o Museu. Não é irônico?

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