Inauguração do velho novo Cinema Pathé e o resgate da memória

A edição de filmes de catálogo por selos independentes encarece a mídia e diminui as chances de aquisição pelo colecionador. E o filme reeditado nos lembra os áureos tempos das salas de projeção com 70 mm, neste caso o da aparelhagem instalada no velho Cinema Pathé, localizado no ambiente outrora chamado de Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, cuja memória desapareceu quase que por completo.

 

É mais fácil destruir do que construir, e até hoje eu não sei se o velho Cinema Pathé, localizado na área que antigamente se denominava Cinelândia, está tombado ou não.

O leitor que me acompanha deve se lembrar de uma visita que fiz ao Pathé, ocupado por uma igreja evangélica, e ao chegar à cabine, tendo me deparado com o lastimável estado de abandono dos projetores Incol 70/35.

O pastor daquela igreja não queria me deixar subir na cabine, e só por insistência minha que ele acabou cedendo. O segurança que me acompanhou acabou por ficar com pena de mim e me deixou tirar algumas fotos com o celular. A ele eu serei sempre muito grato!

A inauguração da aparelhagem Incol para 70 mm se deu por volta de 1969, com a exibição da comédia “Esses Homens Maravilhosos E Suas Máquinas Voadoras”, de 1965, dirigido por Ken Annakin, filmado em Todd-AO, mas sendo exibido no Pathé em 70 mm plano.

O diretor, por coincidência, é aquele mesmo que fez “Uma Batalha No Inferno”, em Ultra Panavision, que inaugurou o processo Cinerama 70 ou Super Cinerama, no Cine Roxy, aqui do Rio de Janeiro.

Pois eis que agora eu me vejo de novo com a chance de recuperar uma versão em disco mais decente deste filme. A Fox do Brasil editou um DVD, anos atrás, com uma transcrição razoável, e alguns pequenos erros de montagem, como, por exemplo, manter o Intervalo com a música do Entreato. Mas, pelo menos saiu em disco, coisa que não acontece mais por aqui com tanta frequência.

 

O filme foi reeditado em Blu-Ray pelo selo americano Twilight Time, lançado a preço elevado, e com prensagem limitada. Depois que o disco se esgotou, quem tinha um para vender fez subir os preços a níveis estratosféricos, injusto para colecionadores.

Mas, eis que me surge por esses dias uma dica que eu recebi de um colecionador americano, que me informa que o filme saiu nas edições da Fox alemã e japonesa, sendo que ambas lançaram o disco sem código de região. No disco alemão, tanto a trilha sonora original como as legendas em inglês foram preservadas, e foi esse que eu decidi importar:

 

Uma agradável surpresa na hora de assistir

A transcrição alemã, provavelmente feita pela Fox na América, tem uma imagem de babar na gravata. Eu venho comentando aqui em casa sobre a superioridade dos negativos de 65 mm, mas não é só isso, as câmeras e lentes daquela época nos convencem até hoje que mesmo com os significativos avanços das capturas digitais, não se vai chegar a este nível de qualidade no ambiente digital tão cedo!

E macacos me mordam, se não é este senão o principal motivo pelo qual vários cineastas se agarraram à filmagem com película, particularmente as de bitola larga.

Olhando o Blu-Ray com atenção é possível notar a qualidade das lentes nas tomadas de plano geral, e em várias outras onde a profundidade de campo focal é exemplar.

 

No disco alemão, a trilha sonora passou por melhoramentos importantes, o nível de distorção, se existente, é imperceptível. O surround de grande parte das produções em 70 mm não era de grande peso nas trilhas, e aqui se nota que o estúdio remasterizou os elementos de áudio de modo a “modernizar” a trilha original de 6 canais. O resultado final é excelente!

As cabines deviam ser preservadas ou doadas a quem de direito

Eu me atrevo a dizer que se o Orion Jardim de Faria, com quem fiz uma amizade nos seus últimos anos de vida, estivesse vivo vendo aquele abandono da cabine Pathé ficaria com o coração partido.

Foi duro ver o pré-amplificador Starscope e os amplificadores Eprad, parte deles jogados no chão, ainda ligados na rede elétrica, provavelmente destruídos. Foi naquele momento que me veio à memória a inauguração do 70 mm no Pathé. O som do filme naquela apresentação era exemplar, também pudera.

Preservar o que sobrou daquela cabine teria sido um ato de responsabilidade com a memória do cinema nesta cidade, mas infelizmente o que aconteceu no Pathé foi o oposto:

 

Pelo estado do rack se vê o grau de abandono da aparelhagem:

 

No Blu-Ray alemão foi preservado o Entreato com o apagamento da imagem. Parece até que eu tinha voltado, por um momento, ao recinto lotado do Pathé. É como roda a nossa imaginação e escapismo, já que o cinema mesmo estando lá, nunca mais será recuperado.

E, aparentemente, nem a aparelhagem, se ainda estiver na cabine, e que poderia ser doada para um museu de cinema ou para um colecionador como o Ivo Raposo, que foi quem me deu a dica de que os projetores estavam lá.

O cinema como diversão

Para quem nunca viu “Esses Homens Maravilhosos e Suas Máquinas Voadoras”, informo que se trata de uma comédia de costumes, com requintes de comédia pastelão, relembrando alguns dos grandes momentos da história do cinema.

Os efeitos especiais da época aparecem com perfeição na montagem. Os atores, cada um representando um país, encaixam seus personagens no contexto cultural de comportamento, em perene conflito com seus adversários, o que faz a comédia ganhar um tom de crítica e paródia.

Tem-se a chance de ver Gert Fröbe, que havia ganho notoriedade como “Auric Goldfinger”, no filme da franquia 007 do mesmo nome, só que desta vez personificando um militar do exército alemão, que diz a todos “que não há nada que um oficial alemão não possa fazer”, mas sempre pelo uso do “manual de instruções”.

Gert Fröbe apareceria depois, em outro papel cômico, na produção similar, feita para Cinerama, rodada em 1968, com o título “Chitty Chitty Bang Bang” (no Brasil, “O Calhambeque Mágico”).

Em ambos os projetos o público infantil convive com o adulto na mesma sala de projeção e com igual alegria, em produções de luxo, visual esmerado, som de alta qualidade, e com elenco escolhido propositalmente. No filme de 1968, a produção importou atores, compositores e coreógrafos que fizeram sucesso em Mary Poppins anos antes.

Esses filmes marcam o momento em que as produções americanas passaram a ser feitas em estúdios ingleses, com o objetivo de cortar custos. E continuaram assim por anos a fio.

Eu afirmo com confiança que não há como superar aquelas suntuosas apresentações em 70 mm. Se a passagem para a projeção digital fosse apenas um passo técnico necessário para o aperfeiçoamento do cinema eu certamente estaria no grupo que aplaudiria de pé a iniciativa, mas o que esta passagem cobriu e encorpou foi a paranoia antipirataria dos estúdios norte-americanos, e nada mais.

O resultado é que nós que somos fãs antigos de cinema temos que aturar a ausência dos projetores de película e a magia intrínseca que eles nos proporcionaram todos aqueles anos.  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

3 comentários sobre “Inauguração do velho novo Cinema Pathé e o resgate da memória

  1. É Paulo o Cinema como conhecíamos está indo para os livros de história; e suas máquinas de projeção para o ferro velho ! As maioria absoluta das salas espalhadas pelo Brasil, viraram tempos de Igrejas, e os cinemas tradicionais são raríssimos os que ainda mantém suas portas abertas. Nos Shoppings a onda que veio para ficar são as salas Multiplex. E a maior novidade do segmento, é a surpreendente substituição das telas de projeção por um novo sistema de tela LED de Cinema, denominado ‘Samsung Onyx’ Em breve acho que só vai sobrar o nome Cinema e as poltronas, pois o resto em nada irá lembrar a era dos projetores de filmes. Santa modernidade !

    • É verdade, e assim como os projetores digitais aposentaram à força os operadores a tela de Leds irá aposentar os projetores digitais. De cinema mesmo a gente só vai lembrar do nome. Sinceramente, garanto que não é implicância, quem viveu a era dos grandes espetáculos de 70 mm acaba por se sentir desconfortável diante da frieza do ambiente e da imagem sem graça dos cinemas atuais. Convenhamos, se é para assistir um filme com imagem de TV a gente não precisa sair de casa, concorda?

  2. PERFEITA sua frase Paulo !!!
    – Convenhamos, se é para assistir um filme com imagem de TV a gente não precisa sair de casa.
    Essa fatalmente será a reflexão ao longo do tempo das pessoas, ao se depararem com esse tipo de realidade…
    Pipoca de microondas e refrigerante saem mais baratos em casa; além de podermos reunir amigos e familiares.
    Fazer o que nesta “pseudo futurista” sala de Cinema ?
    Estará tudo tão similar a um Home Theater, que as pessoas irão achar mais conveniente ficarem no conforto e segurança de suas casas.
    Esses “gênios” não percebem que estão matando o Cinema, no formato e com o objetivo que ele foi criado.
    Os irmãos Lumière estão revirando em seus túmulos…

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