TV de plasma

Por que as TVs de plasma não deram certo

TVs de plasma tiveram a sua época e desapareceram. Os motivos são vários, mas eles nos dão lições que o tempo não pode apagar.

 

Estava mais ou menos óbvio que a tecnologia das telas de plasma seria a solução ideal para substituir o tradicional tubo de raios catódicos (CRT) instalado nas televisões desde tempos imemoriais.

Uma das principais vantagens da tela de plasma seria a completa eliminação das distorções de geometria que os tubos antigos apresentavam. Naquela época, a indústria que ainda usava CRT fez de tudo, inclusive anunciando como “telas planas” as telas que de “planas” não tinham nada. A única exceção em termos de distorção aconteceu quando a Sony lançou a primeira HDTV com tubo CRT, TV esta que foi inclusive usada pelos desenvolvedores brasileiros da DTV.

E outro problema, que lá pelo fim acabou solucionado, foi o erro de convergência. O erro consistia na incapacidade em ajustar os raios das cores RGB para atingir o mesmo ponto na tela. O ajuste disso, e notem que eu o fiz em uma TV colorida, era um inferno. Para ajustar usava-se um gerador de pontos, e uma série de potenciômetros faziam o acerto ponto a ponto. Mas, era quase um tipo cobertor curto: acertava-se no centro e errava-se nas bordas da tela. O ajuste era duplo: estático e dinâmico, este último muito problemático.

Com a tela de plasma cada “ponto”, ou mais especificamente, cada “pixel” tinha lugar fixo na tela. Micro câmaras contendo um gás ionizado, que respondia a estímulos elétricos e emitia luz. O tubo de plasma era de fato plano! O único percalço era que a intensidade de corrente elétrica não era nada generosa com o usuário. A temperatura da tela era alta, a descarga elétrica emitia luz com altíssimo desgaste do material instalado.

Tudo começou a dar errado desde o início: o desgaste das células (micro câmaras) era muito irregular. Na prática, isto implicava, entre outras coisas, na diferença de brilho entre as várias áreas da tela.

Se todas as células se desgastassem ao mesmo tempo, o efeito de desgaste provavelmente não seria sentido, mas não foi o que aconteceu.

A minha experiência com a minha primeira e única TV de plasma que eu comprei foi, por isso mesmo, frustrante. No momento da instalação as cores e a definição eram de tirar o fôlego, parecia um sonho. Em curto espaço de tempo, as imagens de material 4:3 fizeram com que as partes laterais da tela 16:9 queimassem desigualmente. Resultado: o brilho da tela toda ficou permanentemente desigual, com as bordas mostrando menos contraste do que o centro.

Essa minha TV era uma Philips de custo elevado, tela de umas 40 polegadas, se eu me lembro bem. E custava uma pequena fortuna, não me lembro mais o valor. O técnico da Philips foi lá em casa, constatou o problema, mas não deu solução. Eu recorri ao Procon, uns quinze dias depois a Philips me ofereceu uma tela de 50 polegadas, super cara, mas naquela altura, eu estava convencido de que o problema de queima não tinha solução mesmo, e recusei a oferta. A Philips foi muito ética comigo, e devolveu o valor da minha compra.

As tentativas de contornar os problemas da queima das telas

O processo desigual de queima foi inicialmente rotulado como “burn-in”. O problema poderia aparecer em telas CRT, mas era muitíssimo mais raro. O termo “burn-in”, referindo-se à queima, não é preciso. Imagens retidas poderiam desaparecer com tratamento adequado. A queima desigual era mais complicada, às vezes virtualmente impossível, de ser curada.

Uma das primeiras iniciativas dos fabricantes foi manter as barras laterais pretas das imagens 4:3 na cor cinza. Mas este processo foi abandonado. Um amigo meu tinha uma TV dessas e nem ele aguentou.

O segundo e melhor método, usado até hoje nas telas OLED, foi uma técnica chamada de “pixel shift”, ou “desvio de pixel”. O desvio consiste basicamente em mover a imagem horizontalmente, caso a mesma fique estática por um certo tempo. O movimento é sutil e dificilmente perceptível. Assim, o mesmo pixel fica com a imagem retida (ou estática, se preferirem) em um espaço de tempo muito curto, impedindo a queima desigual das várias áreas da tela.

Devido a este método de preservação das telas de plasma vários fabricantes, como Sony, Samsung e principalmente Panasonic, insistiram em continuar produzindo TVs de plasma por um período maior.

Mas, infelizmente, a perda fabril, causada por telas rejeitadas nos respectivos controles de qualidade, tornaram a manufatura das telas de plasma economicamente inviável. Deste modo, a fabricação de TVs com tela de plasma encerrou-se definitivamente, sob protestos dos fãs da tecnologia.

Historicamente, o que retardou esta decisão de não se fabricar mais telas de plasma foi a qualidade insatisfatória das primeiras telas de LCD, problema este só resolvido com a evolução deste tipo de tecnologia.

Porque a tela OLED não tem “burn-in

Toda tela OLED tem desvio de pixel como ajuste padrão. Se o usuário desejar, ele pode desabilitar a função, o que é imprudente!

Além disso, de tempos em tempos, o sistema operacional da TV roda um programa que força um reset de todos os pixels. Isso só pode ser feito com a TV desligada (modo de espera ou standby). Normalmente, o sistema avisa que irá fazer este procedimento, antes do usuário desligar a TV.

Quando as TVs OLEDS foram lançadas já se sabia das suas deficiências de desgaste e emissão de luz, mas estes problemas foram resolvidos, e eu sou testemunha disso, ao acionar um comando com o remoto, que me mostrou uma contagem de milhares de horas em uso até os dias de hoje! Se a minha tela OLED tivesse que mostrar desgaste, ela já o teria feito!

E finalmente, são implementados dois outros métodos de proteção: o primeiro, é o conhecido “screen saver” (ou protetor de tela), usado em todas as versões do Windows mais antigas, em uma época em que se evitava a queima de monitores de tubo (CRT) com a imagem estática prolongada dos microcomputadores.

O segundo, e mais sofisticado método, é o ABL (acrônimo da sigla em inglês “Automatic Brigthness Level”, ou “Nível Automático de Brilho”). O método é também conhecido como “Auto Dimming” ou “Escurecimento Automático”.

O ABL é disparado depois que uma fonte de sinal de vídeo (HDMI 1, HDMI 2, etc.) exibe uma imagem estática por um dado período de tempo. A imagem ficará mais escurecida, até que ela volte a ter movimento na tela ou algum comando da fonte de sinal for acionado.

Em resumo, se a imagem parada estiver sendo reproduzida pela TV (por exemplo, por um aplicativo), o protetor de tela (screen saver) é acionado. Se a imagem for oriunda de uma fonte de sinal externa, o ABL entra em ação.

Todos esses mecanismos de proteção evitam danos à tela OLED, e não devem ser desabilitados. Imagens retidas ainda assim podem desaparecer no momento em que a TV OLED é desligada!

Obsolescência das tecnologias

Eu perdi a conta da quantidade de formatos e solução de problemas afins que desapareceram com o correr do tempo. Na época dos elepês eu cheguei a ver e ouvir um módulo de processamento desenhado para retirar ruídos de impulso do vinil, o que as pessoas conheciam como “estalido”. Nunca funcionou direito. Digitalmente, entretanto, o processo funciona bem, e pode ser achado até em ferramentas gratuitas. Ele me ajudou a remasterizar os meus antigos elepês, de gravações que eu não queria perder.

Na mídia com áudio analógico também apareceram sistemas sofisticados de redução de ruído, como o DBX e o CX, usado nos Laserdiscs. E o que mais duração e sucesso teve neste segmento foi, sem dúvida, o Dolby NR B, para fitas cassete e o Dolby NR A, para fitas de estúdio. O Dolby NR foi usado no cinema para o Dolby Stereo, por causa do ruído da banda ótica das películas, e o seu último formato foi o Dolby Spectral Recording, ou Dolby SR.

Ao longo das décadas, muitos formatos apareceram e sumiram, por questões de baixa aceitação pelo usuário final, inviabilizando as respectivas linhas de montagem. Muitos outros equipamentos nunca sequer foram lançados, sendo classificados jocosamente como “vaporware”.

O tempo é implacável com todo tipo de tecnologia, em função do aperfeiçoamento de designs. Eu vejo cotidianamente pelos vídeos do YouTube pessoas que recuperam hardware jogado no lixo e tentar de qualquer maneira recuperá-lo. Tubos de imagem são reciclados por especialistas, só para remonta-los em alguma TV que morreu décadas atrás.

Sinceramente, fora os vídeos com fins instrucionais ou educacionais, eu não vejo nenhum objetivo saudável neste tipo de obsessão. Seria a mesma coisa, guardadas as devidas proporções, que negar a evolução positiva da tecnologia, quer a gente goste dela ou não.

Em muitos aspectos eu entendo que a evolução da tecnologia de vários equipamentos chegou para ficar e melhorar o que já existia. Revisar equipamentos obsoletos só pode ser útil para todo mundo se lembrar do que existia e porque não existem mais. Outrolado_

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Pontos quânticos contra atacam

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A tecnologia de tela de TV com MicroLEDs

 

Rodando o Windows 10 com imagem HDR

 

O modo de tela dos cineastas já chegou

 

Atração pela obsolescência e tecnologia ultrapassada

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “Por que as TVs de plasma não deram certo

  1. Mestre Paulo novamente dando uma “aula” Bom como já havia comentado com você adquiri recentemente uma tv básica 4k da LG, ela possuí o tradicional painel de Led, e para piorar com o problemático sistema IPS que fica numa sala com uma grande janela ao seu lado que acaba permitindo a entrada de muita luz. Em compensação no meu home-theater possuo outro aparelho a qual considero o melhor da geração Led, que além de ser um Painel V.A. reúne o recurso do direct led, e do ótimo local dimming, além de possuir um painel de 120hz nativo, mas uso essa TV muito pouco, pois a considero uma jóia rara de um fabricante que nos abandonou aqui no Brasil que foi a Sony. Mas diante de sua ótima explicação vejo que a única grande vantagem dos painéis de Plasma eram sua velocidade imbatíveis na taxa de atualização de quadros, bem como no seu nível de preto perfeito. O Plasma poderia ter sido uma obra prima, mas sofreu com a falta de desenvolvimento para aparar suas arestas. Sobrou o famoso e original OLED e não o Q-LED oferecido pela Samsung, que é uma maquiagem muito parecida com o mesmo painel que possuo na minha tv Sony. O pior Paulo é que a Samsung mascara seu Painel Q-Led é um meio termo entre o painel Led, e o original OLED. Mas ninguém divulga isso. Creio que esse raciocínio estaria correto; ou não ?

  2. Fala, Paulo.

    A melhor Tv que eu tinha CRT na época, era a Wega Sony, ali realmente tinha definição boa. Plasma foi Panasonic, LCD temos um arsenal por ai, até de entrada existe Tvs muito boas. Agora Oled realmente acertaram, todas tem falhas, mas painéis Oleds são muito bons. Mas em se tratando em movimentos de pixels CRT/Plasma são imbatíveis em resolução nativa.

    Uma Tv CRT/Plasma de 1080p ela entregava 1080p, ao contrário do LCD/Oled que vc tem que habilitar o mecanismo anti borrão pra entregar umas 600/800 linhas de resolução dinâmica ao invés de 1080p nativo isso em Tv fullhd, e em 2060p se não me engano os 1080p com anti borrão.

    • Oi, Lee,

      A minha primeira HDTV era uma Sony de tubo recém lançada. Eu tinha conhecidos no antigo laboratório da Sony e fiz a compra direto da fábrica de Manaus. Esta TV foi usada por todo mundo que fazia experimentação com HDTV. O pessoal da Mackensie usava inclusive o modelo importado. O problema dessa TV é que ela ainda operava com entrada de vídeo componente e era pesadíssima, cerca de uns 120 e tantos quilos. Ela não resistiu à implantação dos primeiros players de 1080p/i, porque a MPAA impôs a conexão HDMI, com HDCP. Eu acabei dando a TV para o meu irmão. A família dele adorou, mas ninguém ali colecionava mídia.

      A propósito: em um seminário sobre restauração de película, no dia exato em que essa TV chegou em casa, eu perguntei ao restaurador se ele convertia para HD, e ele me fala que alta definição não existia no Brasil, para você ver o grau de desconhecimento dessa tecnologia na época. Também, essa TV da Sony só poderia ser usada para os primeiros sinais de HDTV do ar (OTA) se tivesse o receptor. Por coincidência as transmissões em 1080i no Brasil foram começar bem depois.

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