O Compact Disc foi lançado em 1982 como o som perfeito para sempre. Mas hoje poucos colecionadores procuram discos para comprar.

O CD mantém a promessa do som perfeito para sempre

O Compact Disc foi lançado no final de 1982 com a promessa do som perfeito para sempre, promessa nem sempre cumprida pela falta de escrúpulo de muitas gravadoras, mas que no decorrer do tempo mostrou fortes evidências de que, de fato, foi uma mídia feita para ficar, a despeito da ausência cada vez maior de colecionadores procurando discos para comprar.

 

Em dezembro de 1982, a Stereo Review traz na capa um presente de Natal: a introdução do Compact Disc no mercado fonográfico. Logo de imediato os norte-americanos, aqueles que adoram colocar um acrônimo em tudo, rapidamente batizaram o novo disco de “CD” e ficou assim até hoje!

No mês seguinte, começa a ser vendido o Sony CDP-101 na América, com o natural estardalhaço daquela novidade. A Rádio JB do Rio de Janeiro importou um desses aparelhos, com o objetivo de transmitir o “som a laser”, como anunciado antes no seu programa noturno da música clássica, só que antes o tal som a laser vinha, acredite se quiserem, de um videodisco. Por acaso, eu tinha um amigo, o Ismael, que trabalhava no setor técnico da JB e ele ligou me convidando para ir lá no estúdio dar uma olhada.

Desnecessário dizer que eu fiquei maravilhado. Afinal não se tratava de apenas uma mídia nova. Ela prometia som sem agulha (ufa…), sem ruído, com altíssima faixa dinâmica e resposta de frequência de 0 até 22 kHz. Em suma, era tudo aquilo que nós, então audiófilos, queríamos.

Tempos depois eu conheci o Fernando Blanco, e soube que ele também havia importado o CDP-101. O Blanco, grande conhecedor da eletrônica de áudio, me contou detalhes sobre o aparelho. O CDP-101 fora construído com filtro de barreira, algo condenável para este tipo de design. A Sony havia chegado atrasada naquele momento. A filtragem usada iria impor uma queda abrupta na saída de áudio, com o objetivo de eliminar os chamados “aliases”, que são artefatos múltiplos de frequência capazes de causar distorção na reprodução.

Apesar disso, o CDP-101 soava bem. O meu amigo guardou o aparelho com muito cuidado e o colocou um dia no sistema, provando que o som original, tão criticado na época, não era nem um pouco ruim, e então eu me lembrei daquela tarde no estúdio da JB, onde ouvimos o CDP-101 com caixas Studio Monitor da JBL.

O Fernando Blanco me contou também que, quando o CDP-101 chegou com alguns discos, ele o carregou debaixo do braço e o levou para o seu círculo de audiófilos, a maioria torcendo o nariz para a nova mídia, o que o deixou frustrado e desapontado.

Este preconceito começou fora do Brasil, e teve etapas múltiplas: em uma delas, daquelas que infelizmente eu me lembro muito bem, um engenheiro de áudio europeu resolveu chamar o CD de “mid-fi”.

Por aqui a intolerância e o preconceito contra a nova mídia não foram muito diferentes. Eu havia levado ao estúdio da JB um colega cientista, meu ex-professor de Química Orgânica, audiófilo, ouvinte exclusivo do repertório erudito, e construtor de amplificadores nas horas vagas, e ele saiu de lá igualmente maravilhado com o que ouviu. Chegou a me dizer que esta seria a sua última coleção de discos. Ao mesmo tempo, me confessa que um audiófilo do círculo dele havia lhe dito que era capaz de ouvir o serrilhado da música do CD, com referência àquela curva de amostragem conhecida exibida no osciloscópio.

Eu bem que poderia passar aqui incontáveis horas relembrando a montoeira de bobagens faladas e escritas em alguns periódicos sobre o som “frio” (sem emoção) e “mid-fi” (de fidelidade apenas mediana) do CD. Mas, para quê?

O mesmo preconceito não aconteceu quando os primeiros elepês com matriz digital foram lançados anos antes, o que é no mínimo curioso, porque os primeiros sistemas de gravação tinham algumas falhas de amostragem e resolução que só seriam aperfeiçoadas com o tempo.

Além disso, o que os críticos deixaram de levar em consideração foi justamente o aumento de resolução do CD, quando a fonte matriz era analógica e comparável, com os seus habituais problemas e limitações, fartamente conhecidos pelos engenheiros de gravação, os quais se debateram com eles durante décadas. Para fabricar o elepê, ao fazer a master para o corte de acetato, alguns desses problemas eram disfarçados por compressores ou limitadores, mas no caso do CD a transcrição 1:1 pura e simples não escondia nada!

Esta situação perdurou, até que alguns selos começaram a imprimir algumas advertências sobre problemas encontrados na master analógica usada na transcrição para o CD. Este foi inclusive o principal motivo pelo qual várias gravações analógicas foram posteriormente reeditadas, com o uso de métodos de transcrição capazes de melhorar substancialmente a reprodução daquelas matrizes. Notem que o CD continuou o mesmo, prova irrefutável de que a mídia nunca foi um limitador de qualidade como se alegava naquela época.

 

A promessa do som perfeito para sempre

A campanha de lançamento do Compact Disc pela Philips trouxe consigo o slogan “Perfect Sound Forever”, ou “Pure, Perfect Sound Forever”, como mostrado na imagem abaixo:

 

 

Ninguém disse ao consumidor, muito menos ao audiófilo, que a qualidade de som no disco era completamente dependente da fonte de sinal.

Bem verdade que os primeiros decodificadores dos reprodutores de mesa foram desenhados com uma série de problemas técnicos, entre eles a resolução obtida. Este problema não se limitava à leitura do Compact Disc. Equipamentos usados para gravação digital enfrentaram problemas similares.

Mas, no princípio da década de 1990, a própria Philips lançou o microprocessador DAC-7 em decodificação rotulada como Bitstream, com oversampling a 1 bit. Eu tive em uso durante anos o Philips CD950 com este chip, e posso assegurar o impressionante salto de qualidade na reprodução dos CDs antigos. O aumento de resolução demonstrou claramente que o material previamente codificado no CD nunca havia sido corretamente decodificado e/ou reproduzido.

Na década de 1990, eu escrevi uma carta ao engenheiro Jack Renner (Telarc) comentando o assunto, e ele me respondeu que tinha observado a mesma coisa. Trata-se da opinião de um pioneiro na área de gravações digitais, tendo sido a Telarc a gravadora independente reconhecida como referência nesta tecnologia.

A promessa de “som perfeito para sempre” jamais seria cumprida por vários selos, ao lançar CDs com masterização feita com matrizes analógicas de segunda ou até de terceira geração. Eu estava morando em Cardiff, quando comprei um CD no qual se ouvia o ruído de massa de um elepê que fora usado como master, um vexame!

Porém, aqueles que prensavam CD respeitando as regras de transcrição ofereciam o extremo oposto, com as vantagens amplamente anunciadas, entre elas a fidelidade na resposta de frequência e faixa dinâmica, aliadas à ausência absoluta de ruído na reprodução, uma praga com a qual nos defrontamos por décadas a fio na época de elepê e que me arruinou horas incontáveis de audição de música.

Edições do início do CD

Se alguém tiver dúvida da qualidade e da durabilidade do Compact Disc, eu demonstro aqui um exemplo de disco editado na época do seu lançamento. Trata-se de uma compilação do Jazz Tradicional gravado por bandas britânicas na década de 1960.

 

No início do CD, algumas gravadoras compilavam músicas agrupadas por gênero ou por artista. Aqui no Brasil a Polygram fez isso também. O objetivo era demonstrar o potencial do CD como mídia de reprodução, a partir de gravações previamente lançadas em elepê.

Também nesta época a fabricação de CDs e a sua masterização eram ambas limitadas em número. Basta olhar os créditos acima para ver que a autoração daquele disco havia sido feita na Holanda e o disco prensado na Alemanha. Eis aí uma amostra deste CD, com a banda do trombonista Chris Barber, com o título “Stevedore Stomp”.

 

 

A propósito, o que se chamou de Jazz Tradicional teve várias vertentes, algumas delas compostas como Ragtime ou Rag, e neste CD aparecem vários “Rags”, cuja audição é exemplar para qualquer fã do gênero.

Eu ainda tenho na minha coleção de discos um monte de CDs prensados pouco tempo decorrido daquele lançamento da década de 1980. Aqui no Brasil, a CBS havia acabado de construir uma planta para finalmente prensar os seus próprios elepês, o que antes era feito na Companhia Industrial de Discos (CID) aqui no Rio de Janeiro e depois na RCA em São Paulo. Esta fábrica não foi imediatamente utilizada para mídia ótica, que eu me lembre, mas na época do DVD ela fabricava e exportava discos para venda nos Estados Unidos, discos esses que só foram lançados no Brasil tempos depois.

A Microservice, empresa de São Paulo, foi a primeira fábrica de CDs no Brasil e da América Latina, localizada na zona franca de Manaus. Os discos começaram a ser prensados em 1985. A Polygram foi uma das primeiras a utilizar os seus serviços.

Eu ainda mantenho, e com muito carinho, a minha coleção de discos, tornando-me agora um colecionador “dinossáurico”, de acordo com o atual modismo do correr dos tempos. Como cada um de nós sabe o que faz, eu nunca me arrependi de continuar colecionando discos.

Cada disco tem a sua história, contando um momento que somente quem coleciona sabe valorizar. Para mim, especificamente, a música que me acompanha desde criança não tem valor, muito menos seus artistas a quem eu aprendi a admirar. Assim, salvo melhor juízo, este é o principal e mais importante motivo para se ter uma coleção de discos em casa. E, graças ao CD e seus congêneres, com um som perfeito para sempre!  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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