Suplícios de uma saudade (dos discos de vinil)

YouTube logado faz “recomendações” nem sempre do interesse de quem assiste, às vezes com assuntos os mais inusitados, como a saudade dos discos de vinil.

 

Eu pesquiso e assisto os canais do YouTube rotineiramente e ainda mantenho um pequeno canal, para me ajudar a ilustrar os meus textos aqui neste espaço. E, como de hábito, eu uso o aplicativo em todas as plataformas com a minha conta no Google Mail. Por conta disso, o Google me manda “recomendações” toda vez que eu rodo o aplicativo.

A escolha das tais recomendações às vezes me deixa intrigado, porque são muitas de assuntos que eu não pesquiso nem me interesso por. Mas, como os vídeos são sugeridos, não me custa nada rodá-los e ouvir atentamente do que se trata e/ou tentar entender porque esses vídeos tinham sido “recomendados”.

Em uma dessas listas recentes me aparece uma série de vídeos sobre fábricas de vinil brasileiras ainda em operação. Eu sabia da existência de uma dessas fábricas, localizada no Rio de Janeiro, porque um conhecido meu, que trabalhava para a Som Livre, foi chamado para ir lá fazer algum tipo de reparo. Mas, com a apresentação dos vídeos, eu tomei conhecimento de outra fábrica, localizada em São Paulo. Esta última, dizem os seus donos, foi montada depois de resgatadas as prensas da antiga fábrica da Continental, achadas em um ferro-velho e depois restauradas.

Em ambos os casos, parece que a expectativa é a de que o elepê de vinil continue achando o seu mercado, mantendo assim as fábricas abertas. Anos atrás, eu entrava na loja da Saraiva que existia no shopping do bairro e via nas prateleiras discos de vinil, vendidos a preços elevados. Nunca me preocupei em saber de onde vinham.

Quem tem hábito de ler o que eu escrevo já sabe o que eu penso a respeito de elepês e de fitas cassete, portanto eu não precisaria me explicar de novo. Mas, se alguém está lendo e ainda não sabe, é só acompanhar os links citados acima.

Experiência de vida

Quando ainda adolescente, eu fui levado por um vizinho, pai de um grande amigo de infância, à fábrica da Companhia Industrial de Discos (CID), para ver como um disco era fabricado. Este meu vizinho havia recuperado todas as prensas, tornando-as operacionalmente modernas, e desta forma permitindo que a CID prensasse discos para vários estúdios da época, entre eles a CBS, cujo estúdio de gravação na Rua Visconde do Rio Branco eu também visitei, só que muitos anos mais tarde.

Lá na CID foi que eu comecei a entender melhor a minha eterna insatisfação com elepês, apesar de que lá em casa nós tínhamos uma Telefunken Dominante de alta fidelidade, montada com componentes importados.

E já na fase do meu mestrado, negativamente impressionado com vários aspectos frustrantes da carreira acadêmica, eu tive a estúpida ideia de que eu poderia mudar de profissão, no caso, aprender a cortar acetato. Comprei um livro chamado “Modern Recording Techniques”, que era baseado em um torno Neumann, e com um impressionante detalhamento, dirigido aos profissionais da área.

E lá pelas tantas, eu consegui um estágio na sala de corte do falecido estúdio da Polygram, que ficava na Barra da Tijuca, em um prédio novo. O técnico que me recebeu, ao saber que eu era professor universitário, me perguntou o que é que eu estava fazendo ali, já que apesar do meu salário ser baixo, o emprego era estável. E ele tinha razão, porque os profissionais desta área eram poucos e viviam em um círculo muito fechado, sempre preocupados em não perder seus empregos.

Mas, não foi só isso que me desanimou. Em curto espaço de tempo eu me dei conta de que a tecnologia usada para cortar os acetatos, que depois eram enviados para a galvanoplastia e prensagem, era cercada de um número enorme de problemas virtualmente insolúveis.

No final, eu acabei pulando fora, e anos mais tarde senti pena do meu ilustre interlocutor, que provavelmente havia perdido o emprego, junto com a derrocada inevitável da fabricação de discos elepês.

A indústria fonográfica de então sofreu um baque atrás do outro, apesar da atração momentânea causada por discos de corte direto, ou por cortes de acetato a meia velocidade (“Half-Speed Mastered”) e outras inovações; O torno Neumann foi aperfeiçoado com a tecnologia DMM, mas depois tudo isso foi abandonado.

A era pós CD

Teria sido inevitável que o lançamento do CD no início da década de 1980 iria provocar um retrocesso na fabricação dos elepês. Quando a Philips iniciou o projeto do disco compacto, a ideia principal era a de eliminar de vez a presença da agulha no processo de reprodução, e com isso zerar o nível de ruído vindo da mídia. A eliminação de ruídos foi, inclusive, o motivo da modificação radical do projeto original, o qual previa a reprodução de gravação em ambiente analógico, mas a relação sinal/ruído não era satisfatória.

Antes do CD, o vídeo disco já tinha incorporado este tipo de sinal analógico e o resultado não era bom. Do vídeo disco, entretanto, foi aproveitada a leitura com pick-up ótico, construído com emissor de raios laser, porque este tipo de radiação se provou com espectro de emissão de luz de enorme precisão e baixíssima dispersão. O pick-up ótico original em si era inacreditavelmente simples, com foco servo controlado e erro de leitura muito baixo. Além disso, o sinal obtido pelo pick-up ótico foi projetado para ser armazenado em um buffer de memória, e as correções, se necessárias, executadas em tempo real (“on-the-fly”).

A decisão de trocar o áudio analógico pelo PCM linear foi a pedra angular de todas as modificações de leitura mais importantes. O bitstream assim obtido contém não só o áudio, mas também metadados de controle, que iriam permitir o aperfeiçoamento e a introdução de novos recursos para uso no reprodutor da mídia.

E devido ao uso do método de codificação digital ocupar um espaço de memória reduzido, o disco propriamente dito poderia ser reduzido proporcionalmente, que foi o que foi feito. Depois da Philips consultar o maestro Herbert Von Karajan, foi decidido que o disco teria capacidade de reprodução de aproximadamente 74 minutos de música.

Quando o CD foi finalmente lançado todos os principais percalços já tinham sido eliminados. A frequência de amostragem seguia os princípios elaborados pelo teorema de Nyquist-Shannon, cobrindo assim uma faixa ampla de resposta de frequência, excelente relação sinal/ruído e alcance dinâmico, ambos em torno de 90 dB.

As variações de velocidade, como Wow e Flutter, antes uma das pragas do ambiente analógico, conseguidas com a escolha pelo PCM, foram reduzidas a tal ponto, que se tornaram impossíveis de medir. Mesmo os adversários do PCM reconheceriam que “o som não se mexe”.

Por todas essas razões, o CD, antes dirigido ao público consumidor de música erudita, se tornou a realização do sonho de qualquer audiófilo que, da mesma forma, detestasse estalido de elepê (ruído de impulso), compressão de sinal e outras gracinhas das quais nunca nos livramos.

O único empecilho, o da decodificação digital-analógico abaixo de 16 bits, foi vencido com o tempo. Um amigo meu, que importou e ainda tinha em casa um Sony CDP-101, que usava na saída filtros de barreira, me demonstrou que ele poderia soar convincentemente com a sua conexão a um sistema reprodutor de alta qualidade. Hoje em dia, os decodificadores operam a 36 bits, mostrando que mesmo os CDs mais antigos rodam com impecável fidelidade. A autoração de CDs também foi aperfeiçoada ao longo do tempo, unindo o útil ao agradável.

As fantasias e delírios dos fabricantes de vinil

Depois de ouvir o discurso da alegada qualidade do vinil frente ao digital eu me lembrei do mesmo discurso, proferido na década de 1980, por aqueles que abominaram os CDs. E me perguntei por que estes tipos de preconceitos ainda estão por aí. Será que é só para vender discos analógicos?

Em um dos vídeos, frente ao comediante Jô Soares, o dono de uma das fábricas afirma tacitamente que o vinil tem mais dinâmica que o CD. Este tipo de afirmação, se feito em um contexto de motivação de aquisição de elepês eu até entendo, mas quem ouve e sabe o que está sendo afirmado só pode entender como ignorância ou má fé.

E quando este mesmo senhor menciona a reprodução de sons harmônicos, que ele alega que o CD não consegue realizar, aí eu me lembrei de uma das anedotas que o grupo de audiófilos que eu frequentava na década de 1980 costumava citar toda vez que alguém achava um disco com som de boa qualidade. Aquele nosso grupo nunca levou essas afirmações a sério, porque a experiência de audição naquele momento falava mais alto. Aliás, quando a Philips lançou a codificação de 3 letras, compreendendo gravação, mixagem e codificação, a turma, quando achava um disco CD de qualidade, um perguntava jocosamente para o outro: “É DDD?”, e isso também virou anedota.

Ai, ai, a gente vive, estuda, pesquisa, acumula experiência, fica velho, e continua sendo vítima dos mesmos discursos de mais de 30 anos atrás! Estes da superioridade dos elepês continuam se espalhando impunemente por aí. Mas, uma vantagem, porém, da gente ficar velho, é ignorar o que antes nos deixava indignados. Porque não adianta convencer pessoas de qualquer argumento quando elas acreditam piamente no que falam, ou então tentar derrubar argumentos vindos daqueles que nunca se propuseram a estudar ou evoluir, antes de fazer afirmações sem base alguma!

A verdade é que o CD mexeu com muita gente, alguns foram obrigados a rever posições e paradigmas, ao longo do tempo. Um caso notório e que me deixou surpreso anos atrás foi o do falecido Doug Sax. Ele foi um dos autores da frase “Stop the digital madness”, estampada e vendida em camisetas da Sheffield Lab, gravadora que reintroduziu o elepê de corte direto.

Sax passou os últimos anos de sua vida dedicado ao som digital. Antes disso, a Sheffield Lab já havia abdicado do elepê, e autorando CDs alegando métodos proprietários de remasterização que preservariam a qualidade original dos discos analógicos. Eu tive o histórico disco de corte direto do grupo Tower of Power, e anos depois comprei a edição em CD banhada a ouro! Quando o disco foi feito, o estúdio gravou em digital também como referência, e foi esta a fonte de sinal que foi usada para criar o CD, que soa muito bem.

Parafraseando um dos amigos daquele grupo, “no frigir dos ovos” o que nos importa é mesmo ouvir música. Passamos do tempo do áudio esotérico, alguns de nós sem poder aquisitivo algum, para hoje, caso sobrevivêssemos, ter em casa um equipamento de reprodução de áudio de qualidade nunca antes sonhada! E se alguém ainda insiste em tocar elepês e achar que é o máximo, que assim seja! No que me concerne, eu estou fora disso há anos, me desfiz de todo os elepês e fitas magnéticas, rolo e cassete, e não volto atrás em hipótese alguma, pouco importa a propaganda disseminada pelo YouTube, nas “recomendações” a mim dirigidas! Outrolado_

 

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O nascimento, vida e morte da fita cassete

A superioridade do vinil e outras idiossincrasias do áudio

 

O CD mantém a promessa do som perfeito para sempre

A referência do som digital no passado distante

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

5 comentários sobre “Suplícios de uma saudade (dos discos de vinil)

  1. mais uma vez parabéns pela suas análises na área da música e principalmente quanto à mpb.
    aproveitando o ensejo, o senhor teria algum contato do bebeto castilho do excepcional tamba trio?
    tenho um programa numa radio local, de musica brasileira, e gostaria de conversar com o mesmo.
    obrigado,abraço
    chico santoro

    • Olá Francisco,

      Eu tinha um contato por e-mail com o Bebeto, mas desisti dele depois de perceber que as minhas mensagens ficaram sem resposta. E isto já faz tempo!

      Eu vou te mandar os endereços dele, através do seu e-mail registrado no site, e boa sorte nos contatos. Eu espero que ele esteja bem, e que receba o seu contato com prazer.

  2. Um dos aspectos que mais me surpreende é que, mesmo tendo toda a sorte de serviços de streaming disponíveis, me parece que o único meio seguro de manter uma coleção de albuns com qualidade, permanece sendo a mídia física do CD. Serviços de streaming nascem e morrem, às vezes podem não funcionar, mas o CD estará sempre ali, com a mesma qualidade. Entretanto me faz falta a possibilidade de ouvir muitos cds de forma aleatória. Resolvi isso construindo um servidor local de músicas, extraindo como “flac” as faixas de toda a coleção de Cds que permanecem na estante. O nome do servidor é Owntone Music Server e pode além de tocar no computador local, enviar o áudio para qualquer dispositivo Airplay ou similar da casa simultaneamente. Este servidor gratuito está disponivel no github e vale muito a pena. Spotify e similares, nunca mais.

    • Oi, André,

      Eu também acho que o único jeito de se preservar coleções é com mídia física, porque, como você mesmo menciona, não se sabe a priori se os serviços de streaming vão sumir em algum momento, deixando quem salva conteúdo na saudade.

      Sobre o Spotify eu acho que eles ainda não perceberam a existência do chamado “buraco analógico” produzido pelo aplicativo no celular. Eu já consegui gravações impossíveis de se comprar em qualquer site desta maneira, coloquei as faixas em um editor de áudio e corrigi alguns problemas. Claro que nem todo mundo sabe e/ou consegue fazer isso. E tudo bem que há uma notória compressão, mesmo com uma conta mais cara, mas é melhor do que nada, do ponto de vista do colecionador, não é não?

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