Os Guarda-Chuvas do Amor

O musical romântico Les Parapluies de Cherbourg, escrito e dirigido por Jacques Demy, marcou as presenças deste cineasta e de Michel Legrand, na onda do cinema de arte da década de 1970 no Rio de Janeiro.

 

Quando, na década de 1960, os filmes de arte tinham virado moda para os cinéfilos cariocas, a cidade ficou inundada de filmes europeus modernos. Foram inúmeros os cinemas que se dedicaram a passar esses filmes, abrindo assim um leque de opções importantíssimo.

No nosso bairro, o Cine Tijuca Palace havia sido inaugurado pela Franco-Brasileira, empresa que ganhou fama com o Cine Paissandu, cinema que fomentou durante anos a chamada “geração Paissandu”, composta na sua maioria de estudantes do segundo grau e universitários.

Mamãe, que era cinéfila de carteirinha, foi sozinha assistir “Les Parapluies de Cherbourg” (no Brasil, “Os Guarda-Chuvas do Amor”), exibido no Tijuca Palace, e me recomendou que eu fosse assistir também. O filme parecia não ter resguardo no movimento francês da Nouvelle Vague, por se tratar de um musical. Um dos seus principais atrativos, entretanto, foi a magnífica trilha sonora do compositor Michel Legrand, de quem me tornei fã cativo.

Todos os diálogos cantados foram escritos pelo diretor Jacques Demy, com alguma ajuda da sua mulher, também diretora de ponta, Agnès Varda, que foi quem começou o trabalho de restauração e preservação dos filmes do marido em anos recentes. E esse trabalho foi ainda complementado e disponibilizado para DCP, com DI a 2K de resolução, pelo seu filho Mathieu Demy. Os filmes restaurados saíram em Blu-Ray pela Criterion.

Os Guarda-Chuvas do Amor

O filme de Jacques Demy é inacreditavelmente conservador e moralista. O primeiro título no roteiro, depois abandonado, se referiu à traição afetiva de um casal jovem apaixonado. O projeto foi montado com base em um musical no formato operístico (música sem falas), com diálogos recitativos. Todos os atores, sem exceção, foram dublados por cantores, o que foi essencial para disfarçar a voz natural do ator italiano Nino Castelnuovo, falecido em setembro de 2021, aos 84 anos. Marc Michel, seu antagonista na estória, e que foi o personagem principal do filme Lola, de 1961, chamado Roland Cassard, faleceu em 2016, aos 83 anos. O tema musical deste personagem, aliás, se destaca no filme, tendo migrado da trilha de Lola para a de Parapluies em 1963.

Os principais personagens e os seus respectivos dubladores são os seguintes:

 

Personagem Elenco Cantor/Dublador
Geneviève Emery Catherine Deneuve Danielle Licari
Guy Foucher Nino Castelnuovo José Bartel
Madame Emery Anne Vernon Christiane Legrand
Roland Cassard Marc Michel Georges Blaness
Madeleine Ellen Farner Claudine Meunier
Tante (Tia) Élise Mireille Perrey Claire Leclerc

 

Parapluies de Cherbourg se divide em 3 atos: Le Départ (“A Partida”), L’Absence (“A Ausência”) e Le Retour (“O Retorno”). A parte dramática do filme começa no segundo ato, quando Guy vai para a guerra da Argélia. A estória encarcera subtramas como o efeito da guerra da Argélia na cabeça dos jovens franceses, e ainda a influência da diferença de classes entre dois jovens namorados, que se dizem apaixonados um pelo outro. Uma subtrama importante, que é base do filme, é a da traição de Geneviève (Catherine Deneuve), ao se casar com Roland Cassard, de modo a garantir o seu futuro financeiro e da mãe. Em cenas anteriores a personagem havia prometido esperar por Guy, seu apaixonado namorado, que lhe deixou grávida.

A parte que até hoje acho mais moralista acontece quando Guy (Nino Castelnuovo) não se conforma com a traição de Geneviève e se transforma em um homem auto destrutivo. A lição de moral cabe à discreta Madeleine (Ellen Farner), que ama Guy a distância. É ela quem chama a atenção de Guy de que ele parou de reconstruir a sua vida, acusando-o de ser um homem amargo que ama a solidão. E é esta lição de moral que faz Guy acordar, voltar a viver, e se dar conta de que Madeleine sente por ele um amor desinteressado, aspecto que deveria ser, segundo Jacques Demy e Agnès Varda, a base de toda relação afetiva sadia!

Nos escombros da história

A década de 1960 marcou não só o cinema de arte, mas também o movimento cineclubista na Tijuca e no Rio de Janeiro, e eu participei dele à distância. No Tijuca Palace rolou durante anos a programação do MAM, para o dia inteiro das quintas-feiras. E foi principalmente neste cinema que eu assisti a maioria dos chamados “filmes de arte”, e dos filmes de diversos cineastas modernos, até mesmo os não europeus, que faziam cinema comercial com forte influência dos movimentos de arte europeus.

Com o desmonte de todos os cinemas da Tijuca, o Tijuca Palace foi um dos últimos a fechar as portas, durante a década de 1980. O cinema original era de grande porte, e com a tela adaptada para filmes muito antigos. Antes de fechar, o cinema original foi destruído e reconstruído com duas salas, que acabaram também não resistindo à falta de público. Uma delas chegou a exibir filmes pornográficos, para indignação dos antigos frequentadores e transeuntes da galeria, por conta da exibição dos cartazes desses filmes.

 

Se hoje, alguém passar por lá vai ver apenas uma marquise com o nome do cinema, provavelmente porque foi assim que aquela galeria ficou conhecida. Em visita recente aos dois cinemas que ainda estão lá, Ivo Raposo e a sua filha Isabela documentaram as ruínas do que sobrou das duas salas, para um programa de televisão do canal Curta! chamado /lost+found.

Anos atrás eu soube que um grupo paulista visitou o ambiente, pensando em recuperar o espaço, mas eles acabaram desistindo. A Franco Brasileira se recusou a alugar o que sobrou, tanto do Tijuca Palace, quanto do Cine Paissandu, para ser ocupado por igrejas ou seitas, o que já tinha acontecido na Tijuca várias vezes, nos antigos Cine Carioca (tombado), Britânia, Cinema III e Comodoro.

 

Como não existe, aparentemente, qualquer chance de recuperação dessas salas, qualquer projeto de recuperação do Tijuca Palace acabou indo para o limbo. A galeria do cinema ainda é muito frequentada, por causa do comércio local, mas para por aí.

Uma aparelhagem que estava estocada durante anos no Tijuca Palace foi comprada pelo grupo Projecine. Quando o pessoal chegou lá, se deparou com projetores de 70 mm apodrecidos, uma lástima. Esses projetores, Cinemeccanica Victoria 8, foram recuperados, ficaram operacionais novamente, mas sem os debitadores de 70 mm. O Charles, do Projecine, me mandou umas fotos da restauração, mas nós perdemos contato e eu por isso não sei o que foi feito com os Victoria 8. Agora, evidentemente, pouco importa, porque o abandono da película forçou os exibidores a projetar com DCP.

A ilustração a seguir mostra um dos projetores recuperados pela turma do Projecine, e que foi publicada em texto que eu escrevi para o in70mm.com anos atrás:

 

O Tijuca Palace marcou uma época que não vai ser esquecida pelos cinéfilos e pelos seus frequentadores. Infelizmente, não adianta mais lamentar que aquele espaço continue em escombros ou que vá ser recuperado.

Adendo sobre Michel Legrand

Este notável compositor, que tanto emprestou a sua criatividade e lirismo a várias trilhas sonoras em filmes franceses e americanos, veio várias vezes ao Rio de Janeiro.

Um dos seus melhores discos, e olhem que para mim é difícil escolher, é The Warm Shade of Memory, onde ele faz uma recapitulação ao piano dos seus melhores momentos:

 

Comigo aconteceu um incidente bizarro em uma dessas visitas. Eu fui alertado que Legrand iria tocar na extinta casa noturna Mistura Fina, que ficava ali na Lagoa. E quando eu liguei para lá para comprar um ingresso, o que eu ouvi do outro lado da linha foi uma sonora gargalhada! O meu indelicado interlocutor me diz que todos os ingressos já tinham sido esgotados logo que a presença do compositor foi ventilada.

Alguns anos atrás, um amigo meu me chamou para ir na Julieta de Serpa, onde iriam tocar gente famosa da Bossa Nova, em um show comandado pelo falecido Durval Ferreira, que morava no mesmo prédio desse meu amigo. E foi lá que eu conheci de passagem o baterista José Boto Leite Filho, conhecido pelos íntimos como Boto, que era quem tratava dos interesses e visitas do Michel Legrand. Eu não tive chance de puxar o assunto da gargalhada com ele, mas vontade não faltou.

O fato é que, músicos notáveis como Michel Legrand, não deveriam se apresentar em um lugar tão restrito e elitista como era o Mistura Fina. Quem deu sorte de ter ido lá se fartou, quem era fã incondicional como eu e não foi, e ficou na saudade! Outrolado_

 

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Cinemas de rua: não há nada que se compare a eles!

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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