A preservação de música em mídia ótica

A preservação de fonogramas é essencial para a indústria fonográfica e para o colecionador amante de música. A saída menos complicada é usar um servidor de mídia, tomando o cuidado de manter preservada a cópia dos originais em outro drive.

 

Durante um longo período de tempo colecionadores procuraram uma forma de preservar os seus discos fonográficos de forma eficiente e duradoura, e a mídia de eleição sempre foi a fita magnética de rolo, para aqueles afortunados que tinham disposição financeira para montar um sistema em casa com tais equipamentos.

Eu tive um professor de Química Orgânica na faculdade, e que depois foi meu colega na UFRJ, chamado Affonso do Prado Seabra, cientista “top” na área de química, que tinha na eletrônica e na música os seus principais hobbies. Eu trabalhava na época no Departamento de Bioquímica Médica, um andar acima do então Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais (hoje IPPN), onde o Professor Seabra tinha o seu laboratório de pesquisa. Um dia eu soube que ele andava vendendo elepês importados de música clássica, porque uma colega do departamento se interessou em comprar alguns.

O que o estimado Professor tinha por hábito era comprar discos importados, tocá-los com banho de água, ao mesmo tempo gravando o resultado em uma fita de rolo, gravada por uma máquina inglesa da marca Ferrograph. E a seguir, os elepês eram vendidos.

Muitos audiófilos da época acreditavam que a primeira reprodução de um elepê era a única chance de preservar o espectro de frequências elevadas, que supostamente desapareceriam com o passar do tempo. A estratégia de pingar água no disco tinha por objetivo diminuir o atrito entre a ponta da agulha e a superfície gravada do disco. E assim era possível se conseguir um som sem ruído. Mas, a prática não estava correta, porque a pressão da agulha sobre o vinil acabava por danificar permanentemente os sulcos, problema este que a minha colega do departamento descobriu rapidamente.

O Professor Seabra e eu tínhamos uma relação profissional a distância. Eu nunca figurei na lista dos seus melhores alunos, muito pelo contrário. Mas, um belo dia ele esteve com essa colega que comprou seus discos, entrou no laboratório, viu algumas revistas de áudio em cima da minha mesa, e perguntou a ela de quem era.

E assim, com o devido tempo, fizemos uma espécie de relacionamento mais chegado, a ponto de que quando o CD foi lançado na América eu o convidei para ir aos estúdios da Rádio JB, para ver e ouvir um Sony CDP-101, que a emissora tinha acabado de importar. Foi neste momento, inclusive, que o ilustre Professor saiu de lá me dizendo que esta seria a última das suas coleções de disco.

A minha tímida relação com o Professor Seabra se tornou mais estreita, quando eu publiquei na revista de banca MSX Micro um artigo sobre o assunto Geradores de Áudio1, contendo um programa super simples, com esta finalidade. O Professor havia recebido da Sharp cartuchos com programas para Hotbit, e escreveu um livro sobre os programas ali contidos. Ao ver o meu artigo nas bancas, ele me ligou e pediu para revisar o seu livro. E as minhas revisões acabaram se estendendo a outros livros publicados posteriormente. Que ousadia essa minha, corrigindo o mestre… Tudo feito com enorme cerimônia, e não era para menos!

A entrada do gravador de CD-R em cena

Durante muitos anos, eu mantive alguns discos preservados em fita magnética também, primeiro as de carretel aberto, depois em cassete. A fita de rolo sempre foi muito superior em qualidade do que as fitas cassete. No entanto, eu me animei em abandonar a minha coleção de fitas de rolo quando as fitas de metal em cassete se tornaram disponíveis, prometendo uma qualidade superior. Eu cheguei a gravar mais de 100 fitas cassete, posteriormente usadas no meu carro e depois jogadas no lixo. Aliás, diante dos muitos vídeos no YouTube que eu assisto, falando sobre a suposta qualidade das fitas cassete, que todos nós acabamos “esquecendo”, eu percebo que as pessoas envolvidas aparentam estar nostálgicas do formato, e nada mais. Na realidade, esta tal “superioridade” nunca existiu, nem usando os melhores cassete decks.

A primeira vez que eu vi um drive para gravar CD-R (“CD Recordable”) funcionando a impressão inicial foi péssima, eu diria decepcionante. Os drives, além de caros, eram super lentos e inconfiáveis. Quando a “queima” da mídia estava em andamento, era recomendado que nenhum outro programa fosse rodado no computador em uso. Este aconselhamento foi mantido até mesmo nos programas mais modernos, até os dias de hoje, por incrível que pareça.

Inicialmente, um disco CD-R era usado para fazer back-up de dados. Entretanto, qualquer usuário que fosse consciente das limitações do processo de cópia perceberia que duas coisas precisaram evoluir para contornar as dificuldades de queima da mídia neste início: os discos CD-R graváveis careciam de corantes estáveis e os drives de queima com maior capacidade, não só de velocidade de gravação como de gerenciamento da memória envolvida.

A mídia eventualmente melhorou de fabricação e se tornou bem mais estável, dando mais confiança para a gravação de dados ou música. Houve uma época em que a Philips lançou um tipo de CD-R especificamente para música, mas isto era apenas uma jogada de marketing.

A imagem abaixo mostra um dos discos que eu usei durante a década de 1990, já possibilitando queimar a mídia mais rápido, com garantia de duração prolongada, e dotado de proteção contra eventuais danos:

 

Quanto aos drives a evolução foi um pouco mais lenta. Ainda na década de 1990 eu consegui comprar um drive CD-R/RW Plextor, uma marca das melhores do mercado naquela época, mas a velocidade de gravação ainda não chegava nem perto de uma mídia como a mostrada acima. Entretanto, eu me senti mais animado e confiante para começar a preservar o que sobrou da minha antiga coleção de elepês, discos que nunca tinham visto a luz do dia remasterizados para CD.

Gerenciamento da memória

Uma das recomendações de queima de um CD-R considerada por alguns como muito importante se referia à velocidade com a qual um disco era gravado. Se houvesse perda de dados, o usuário deveria queimar a mídia em uma velocidade mais lenta!

A gente tem que entender que as máquinas de 1990 ainda não tinham um gerenciamento de memória capaz de realizar múltiplas operações simultaneamente de forma segura. Além disso, os drives de CD-R eram desprovidos de buffer de memória adequados. Para quem não sabe, esclareço que o “buffer” é uma área de armazenamento temporário de informações, útil neste caso, para manter uma operação de queima da mídia sem nenhuma interrupção. Como o termo sugere, o buffer tampona, mantendo constante a passagem de dados da fonte ao destino, impedindo que o destino fique sem dados. Este recurso é usado até hoje em uma enorme quantidade de equipamentos, além dos computadores pessoais.

Com o tempo, os drives de CD-R e posteriores passaram a ser desenhados com um buffer de memória interno, para evitar a interrupção da queima da mídia. Além disso, os programas para a queima do CD-R ou CD-RW (regravável) passaram a administrar o trânsito de informação que vem dos arquivos a serem gravados até chegar na mídia para serem queimados. Abaixo se pode ver a captura da tela do programa Nero Burning ROM, na versão atual. Notem que os buffers de memória estão em dois níveis: o primeiro, que compreende a memória interna e/ou espaço em disco do computador (Buffer de leitura da fonte) e o segundo, que indica o buffer do drive usado, neste caso um LG WH16NS40.

Se ambos os níveis de buffer permanecerem como mostra a ilustração, isto é, próximos de 100%, a queima segura da mídia estará garantida. Nos computadores atuais, com arquitetura de memória e CPU eficientes, o processo de queima chega a passar transparente para o usuário, deixando-o à vontade para continuar trabalhando sem se importar com o processo de queima.

 

Preservando arquivos de áudio em mídia ótica

A preservação de música gravada analógica ou digital sempre existiu no ambiente dos estúdios, mas deixou muito a desejar com o uso de fitas magnéticas, que se deterioram se expostas a um ambiente hostil, muito mais do que com a mídia ótica. Esta última também precisa de cuidados, como, por exemplo, armazenamento em ambiente com pouca umidade, mas a deterioração é muito mais dependente do tipo de corante usado na fabricação dos discos, que pode acontecer em qualquer ambiente.

Por outro lado, quando a indústria fonográfica começou a entrar em decadência, com estúdios importantes fechando as portas e tudo o mais, a disponibilidade de aquisição de música se inclinou para o lado dos downloads, que perduram até hoje, em particular de remasterizações de gravações de catálogo em alta resolução, que virou uma espécie de coqueluche das ambições de audiófilos anos atrás.

A preservação doméstica

O trabalho de preservação dos meus elepês remanescentes me obrigou a começar a entender como se consegue remasterizar o áudio, passando de analógico a digital, usando um computador, e depois como é possível restaurar o conteúdo, retirando imperfeições dos discos, como, por exemplo, ruídos de impulso, o conhecido estalido, e corrigindo, dentro do possível, as limitações das transcrições analógicas originais.

Elepês sempre foram notórios geradores de vários tipos de ruído, entre eles o famigerado ruído de massa, que resulta desde a incapacidade de trilhagem correta da agulha nos sulcos, até o ruído oriundo da qualidade do vinil usado na prensagem. Eu tive discos que tocavam com o ruído chamado de “ondas do mar”, porque o som que saía quando a agulha pousava no vinil era muito parecido com o som do mar quando chega na beira da praia.

Em um bom programa de edição, em escala profissional ou amadora, como no meu caso, sempre foi possível tratar o arquivo derivado da remasterização de modo a retirar ruídos indesejados. Para tanto, o usuário precisa capturar uma amostra da área onde o ruído possa ser isolado e o resultado aplicado como filtro. Quem acompanha a coluna deve se lembrar quando este assunto foi discutido, à luz de um exemplo em vídeo do processo de restauração de um elepê barulhento.

Preservação dos downloads de alta resolução

Quando alguém faz um download de arquivos de alta resolução de áudio, principalmente aqueles que tem um custo elevado, ele ou ela terá que determinar aonde eles vão ser armazenados!

Isso pode aparecer uma decisão banal, mas na prática ela não é tão simples assim. Os arquivos precisam ser necessariamente salvos em um dispositivo de memória, local ou na nuvem. As chances de perda destes arquivos são reais, mesmo que pareçam remotas. E neste particular, a mídia ótica ainda pode, pelo menos, ser uma forma de garantir a pronta disponibilidade do material de áudio adquirido a longo prazo. A mídia ótica de boa qualidade pode, inclusive, aumentar as chances de que a preservação dos fonogramas seja permanente.

A edição de áudio é um hobby às vezes complexo. Os downloads, principalmente os de alta resolução, pulam as etapas de remasterização e restauração do conteúdo, dentro do possível com uma qualidade aceitável, mas que não invalida a edição do áudio e/ou a conversão do formato original para outro do interesse do usuário, ao invés de simplesmente salvar o conteúdo em algum dispositivo de memória.

Durante anos, eu usei o software da extinta Syntrillium, com o nome de Cool Edit, que evoluiu da versão 2000 até a versão Pro 1.5. Quando a Syntrillium fechou, a Adobe comercializou o mesmo programa, com o nome de Adobe Audition. A sua última versão, 3.0, não se encontra mais à venda. A versão CS pode ser usada, caso o usuário esteja interessando no programa pagando uma anuidade. Esta versão é mais aperfeiçoada do que a versão 3.0, inclusive. Se vale a pena ou não, vai depender de quem usa.

Um dos recursos que o Adobe Audition 3.0 não faz bem é a edição de múltiplos canais de um mesmo arquivo simultaneamente, mas o software gratuito Audacity o faz de uma maneira muito simples e com enorme flexibilidade no tratamento do áudio.

O Audacity consegue abrir o arquivo multicanal e trabalhar em qualquer um dos canais gravados ou em todos ao mesmo tempo. No final, o usuário poderá exportar o arquivo ou partes dele, com a possibilidade de editar as Tags que identificam o conteúdo. As tags são salvas como metadados. Se o player consegue ler esses dados, a identificação original pode ser exibida no display ou na tela.

Abaixo, eu mostro dois exemplos de arquivos multicanal abertos pelo Audacity. Um deles se refere a um arquivo de áudio no formato 5.1. Notem que o LFE, se existente, é tratado pelo Audacity como um canal separado. Assim, um arquivo 5.1 será editado em 6 trilhas diferentes.

 

No outro exemplo, mostrado acima, o som original é 4.0 Quadrafônico, encarcerado em um arquivo 5.0, e neste caso o canal central não tem conteúdo, o que pode ser visto no meio da figura como uma linha reta.

No Audacity, o processo de exportação do arquivo editado envolve a distribuição padrão dos canais para o formato original, que poder ser mudada se assim desejado. O programa permite a edição dos Tags (informações sobre a música gravada), que serão incluídas nos metadados do arquivo exportado:

 

O arquivo multicanal exportado pode ter o destino que interesse a cada um, seja o de ser armazenado em algum drive ou servidor de mídia, ou então montar um DVD-Audio ou DVD-Video ou um disco híbrido (DVD-Audio/Vídeo). Se for para um DVD-Video o formato adotado é geralmente o Dolby Digital (AC-3) 5.1. Na reprodução, o LFE será ignorado, caso ele não esteja presente.

Infelizmente, a montagem de um DVD-Audio está cada vez mais difícil de realizar, por falta de aplicativos. Então, a saída menos complicada é usar um servidor de mídia, tomando o cuidado de manter preservada a cópia dos originais em outro drive.

O prazer de ouvir música e não perde-la dentro de casa justificam o esforço desprendido pelo colecionador ou hobbyista. Eu entendo que muita gente ainda usa fita de rolo ou cassete, porque de qualquer maneira gravações importantes são resguardadas!

1 Referência bibliográfica:

Elias, P.R.P. Gerador de Áudio. MSX Micro 9 (2): 7-10, 1987.

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A superioridade do vinil e outras idiossincrasias do áudio

 

O CD mantém a promessa do som perfeito para sempre

 

Gravação antigas de rock: do som mono ao multicanal

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

3 comentários sobre “A preservação de música em mídia ótica

  1. Olá Paulo
    A idéia do audiófilo presevar toda sua coleção de músicas (no termo antigo, sua discoteca), realmente se faz necessário. Tenhamos em mente a variedade de formatos de fontes de áudio desses colecionadores, armazenada ao longo de décadas (Vinil, K7, Rolo, CD, DVD-A, MD, DAT etc). O problema é que a indústria está aposentando as mídias óticas, então a saída será os backup em HD’s, o problema será definir qual o melhor formato digital para converter sua coleção; AAC, AC3, WAV ou outros formatos…

  2. Salve Paulo,

    Muito bom o texto, é uma delícia ler e reler com calma. Tenho refrescado a memória de momentos que hoje estou distante. Que saudades dos anos 90 quando eu era adolescente, sou de 77.
    Bem, é recomendado até desabilitar o protetor de tela dos computadores quando se está queimando mídia. Creio eu que seja pelo uso da memória e da CPU.

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